O tempo infinito das estrelas

Quando fui mãe, revisitei todos os lugares onde já tinha estado e todas as botas que havia calçado, sapatos grandes ou demasiado pequenos, envernizados e novos ou toscos e velhos. Voltei a ser criança, a precisar de colo. Voltei à criança que ouvia as histórias da avó e que tinha saudades do pai que nunca teve, esse ser longínquo e misterioso. Voltei a estes lugares sem nome, e recordei tudo. E doeu-me como se fosse ontem. Fiquei imobilizada numa saudade impossível de tudo o que não foi, no desgosto das coisas que queremos que sejam.

Então, quando os meus pés, desnudos, começaram a avançar e os meu olhos vendo o meu filho a crescer, resgatei a criança que ouvia a avó, dei a mão ao seu pai de longe, abracei a sua mãe solitária. Porque todos eles fizeram o melhor que podiam ter feito, naquele tempo, naquele espaço.

Agora é a minha vez de perdoar e, olhando a minha pequena família debaixo do céu estrelado, acalento a esperança de também ser perdoada, quando a vida se renovar.

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