Tudo (mesmo tudo) Passa

Longos contam os dias em que não escrevo. As palavras caem na alma, sem que a tinta as assente no papel ou a impressão as prenda ao ecrã. Estes foram tempos que se desenrolaram devagarinho, mas numa sucessão de pequenos grandes acontecimentos, sem dar tempo para respirar ou pensar.

Agora, que o extraordinário veio morar cá dentro, desalojando o emergente, o inadiável e o imprescindível, parecia que haveria tempo para contar as estórias. Na verdade, precisei de tomar as rédeas àquela velha amiga que prende os peixes no aquário, num abraço sufocante à volta do coração. A ansiedade e o medo segredam ao ouvido de todos e eu tinha já o desábito de a domar. Foi necessário tomar-lhe o pulso, desmontar o medo com paciência búdica, com carinho e desvelo. Dizer-lhe que o amanhã em destroços não aconteceu todavia; foi apenas a sua verborreia assustada que criou o mundo em ruínas e, em verdade, olhando a janela, os passarinhos cantavam ainda e o sol nascia e morria nos lugares de sempre. E cá dentro, o coração batia. Passei a mão no rosto quente e disse ao Medo para falar baixinho, os sentidos em alerta estavam melindrados com os seus gritos. Ah, o medo, a ansiedade, do que ainda não foi, não é e não se sabe se poderá ser.

É preciso falar em intimidade com o que vai cá dentro num espaço seguro. Ir lá fora, abrir uma janela ou sentar no chão nu e frio. Tornar evidente a realidade tranquila que ainda existe, não obstante a narrativa ansiosa que contamos a nós mesmos incessantemente. O que nos conta o mundo desde os primórdios? Tudo é passageiro. Tudo passa. Nada morre, apenas tem a oportunidade de evoluir.

É preciso movermo-nos na esfera dos nossos possíveis. Fazer o melhor, no tempo e com as ferramentas que temos, a cada instante. O que resta, afinal, não está ao alcance do nosso braço. Caminhar no presente. Contar a estória à medida que esta acontece, sem futurismos de desastre. Ouvir pouco, apenas o que é sensato. Apreciar o que é bom porque – há sempre algo bom em tudo – o silêncio, a frescura do ar, o trinado dos pássaros. Já reparaste como tudo abrandou de repente? Se não cuidas das estórias que contas a ti próprio, pensa que agora tens mais tempo para ouvi-las.

Tudo passa. Vai tudo ficar bem. Mesmo o que terá de partir. Mesmo que fica e tem de viver.

Resume a tentar ser o mestre que senta na proa do barco durante a tempestade.

E de repente, o sol dissipará qualquer nuvem.

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