Um barco de luz

Naquela noite, um barco de luz se balançava junto à costa. À deriva, riscava as águas escuras com a sua tímida luz.

Uma vaga enorme, de água e de tristeza se abateu sobre o barco. A sua carcaça soluçava violentamente, as bátegas de agua se abatendo sem misericórdia sobre o convés, a proa, toda a sua extensão pardacenta se confundia com o negro das águas e com o frio da noite.

E mesmo assim, a pálida luz do barco tremeluzia, desafiando a sua rendição as trevas.

E, mesmo depois da grande vaga passar, a tristeza colou-se ao barco como uma segunda pele, como um manto de cracas, cujo lastro pungente, a melancolia e a dor, permanecia no fundo das almas.

E entretanto chegou o dia. As luzes, os cheiros, as vozes. A cacofonia de vida limpando os resquícios da grande tristeza.

Se olharmos bem este barco, está lá o espectro da grande vaga escura, pairando docemente. Mas também estará luz, mesmo que baça e tremeluzente.

Às vezes, tudo o que podemos fazer é mantermo-nos à tona. Protegermos a nossa luz, para que jamais se apague. E galgar todos as ondas, não importa quão escarpadas, quão imensas, quão dolorosas.

Tudo isto passará. Apenas a luz permanece.

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