Vestir a Alma

Vejo-a bem, uns passos à minha frente, vestes brancas, descalça e com um sorriso rasgado no rosto. Qual flor mais perfeita e frágil do mundo. Desde que vieste para este mundo, estendes a mão para a minha criança de dentro, aquela que volto a ser quando te vejo e convidas-me a caminhar contigo. A minha criança interior tem medo e olhos cansados, de velha ferida e desconfiada, mas o teu olhar límpido envolve o meu. Eu sinto-me desnuda e, contigo, sou a primeira gota de orvalho da manhã, aquela que inaugura o mundo. Não pensei ser possível voltar a ser assim, nova em esperança, apesar de todos os destroços da vida.

És exatamente aquilo que te anima, a tua alma brilha alto, e a minha criança segue-te cega e ébria de luz, gravitando à tua volta. Esta criança desarma-me de todos os meus segredos e engenhos. Às vezes tenho vergonha do minha trémula sombra no seu encalço. Mas então, ergo os meus olhos e encontro o seu olhar luminoso, de confiança inabalável em mim. E volto a vestir-me da minha Alma, como era no início. E volto a nascer contigo.

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