Palavras imperfeitas I

Olho estes momentos que passaram, fui feliz.
E houve segundos em que um deus menor sorriu no céu,
E em que um relâmpago abriu os mares. E eu fui redonda e inteira,
Toda eu, ali, nua e exposta, à intempérie dos sentidos.

E tudo o que dói hoje é este ser que fui, e que dei e derramei,
Para lá deste cálice vermelho, com o meu sangue,
A pulsar ensurdecedor em todos lugares da Terra
Desta terra feita do meu corpo, em que nada nasceu.

E agora esta dor, a trabalhar a engrenagem da cabeça
Sem coração, reduzido a ruído de fundo, calado
Mudo, como são todas coisas que sofrem e
Em silêncio, permitem viver.

Não sei para quando o acordar. E se alguma vez voltar…
A cantar com o coração empalado,
Talvez não haja retorno,
E assim possa, finalmente, descansar.

E fecha-se o palco, cai o pano.
Nenhum aplauso, nenhuma lágrima.
E sons dos passos, que seguem, adiante.
Para lá há sempre caminho. E recomeço…

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A Alma no Coldre

Um carvalho velho ao longe. Um cheiro de terra húmida.
Retiro do coldre esburacado, à cintura magra, a arma fria do desgosto.
Aponto como se fosse atirar aos esquilos. Uma bala mortífera de desilusão.
Guardo a arma no coldre. A ninguém este tiro, nenhuma caçada pelo que já está preso aqui dentro.
Aonde vou plantar esta semente de sombra e de vazio
Que nunca há-de germinar?
A quem vou alimentar com a podridão desta paz calada,
à custa de mim, do meu silêncio de pedra e de deserto?
Olho o coldre à procura da arma. Aponto-a para mim.
O seu metal cinzento como um espelho. E olho e
Esquivo-me ao seu tiro. Pólvora seca.
A desilusão não tem fogo para disparar.
Largo tudo – a arma, o coldre. Rumo nua, sem escudo, sem sombra.
Às vezes há que começar em branco. Rumar a partir do vazio.
Até o carvalho oco e velho pode ser majestoso.
Se souber esperar.

Asas de papel

Asas de papel porque nada é tão frágil como o ser que começa. Qualquer começo é frágil, porque é fácil ceifar a vida que ainda mal respirou. Às vezes apetece voltar aos começos e reescrever tudo. Olhar em volta e antecipar as coisas inomináveis que aí vêm. E dizer:

– Vais dizer coisas sem remédio. Vais magoar os que amas. Vais sofrer de formas que sonhaste serem impossíveis.

Mas nada digo, mesmo neste começo. Sei que vou errar. Sei que estou a errar, neste momento, em que antecipo o que ainda não vivi. Sei que vou sofrer e, pior, vou fazer sofrer. Mas tenho o encanto do que é pequenino, o que alimenta em si a semente de poder ser grande, em tudo e em todos. Eu quero viver, mesmo que saiba que vai doer. Queremos viver, mesmo com a tristeza de tudo o que não foi e sonhámos um dia ser.

Asas de papel que estendo timidamente ao sol e ainda à chuva.

Recomeça, então. Uma e outra vez. Não lamentes o que passou. Rega bem esta de semente do agora. E acalenta esta força do que nasceu hoje. Nada é tão pleno de esperança como o que ainda não aconteceu. As posssibilidades são infinitas.

Vou contar a história destas asas de papel, cada pequeno rasgão, cada borrão de tinta. Às vezes vou mostrar como elas brilharam ao sol e enfrentaram tornados. Vamos contar esta história juntos. Alguns vivem para contá-la. Eu conto-a para continuar a viver, e a voar.