À beira do mar, o mundo era nosso

À beira do mar, o mundo era nosso. E eram nossas as ondas e a espuma a lamber-nos os pés. Cada grão de areia escorregava no nosso suor, dos dedos até ao chão. E a descoberta de não estarmos sós, nunca mais, desprendia-se do nosso fôlego, ressoando pele a pele. Eram nossas as árvores altas, quietas na sua imensidão, reverenciando as folhas longas ao vento. Eram nossas as mãos dadas, ou não seriam? Não eram, agarravam um mundo a nascer, uma mala de desejos sussurrados ao universo.

Era nossa a alegria, calada. Secretos nomes que chamávamos um ao outro, apelidando os sonhos como queríamos, sem método nem gramática. Sem medir nada, sem guardar nada, apenas a sentir. E o mundo era nosso. Como hoje o é dos nossos sonhos e desejos, que secretamente enchem o berço do mundo. 

As borboletas, nossas, esvoaçavam na barriga, vivas, não metafóricas. E engolíamos tanto ar, a rir, para que pudessem voar mais alto.

E esperavamos, juntos, que o mundo eclodisse de novo, num fogo-de-artíficio ancestral.

Está quase. E só este sentir é nosso. Nem o tempo, nem o espaço, só o sentir, grande e profundo. É nosso. E não desaparecerá nunca.

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Primeira noite, primeiro dia

Podia ser a primeira noite, os olhos a abrirem-se para o alto

E minúsculos pontos de luz cintilavam como se fossem sinos.

Era uma estrela, e passeava o brilho na minha Alma,

Como um luar cálido e branco que entra na janela.

Podia ser o primeiro dia, 

E milhões de gotas de orvalho forçavam o desabrochar da flor.

Como um fruto suave cuja casca fende ao mais leve toque.

Podia ser a primeira mulher,

E tu o primeiro homem, 

Nos primeiros dias e noites juntos.

E dávamos a mão à nossa criança, 

A mais frágil e a mais amada das criaturas,

Porque tudo o que começa tem uma magia ancestral,

E move os nossos corações, como mais nada os faz bater.

Podíamos ser os primeiros, ou os últimos.

Mas os únicos, nesta noite escura, que cintila como uma supernova a nascer.

Não morreremos nunca, companheiro. 

Ser cúmplice do sol

São muitas as flores que doem na Alma, mesmo nos campos floridos da memória. São demasiados os troncos mortos no chão, as folhas que cedem aos nossos passos, a poeira que nos cega e que fende a língua. Estes destroços são tantas vezes, e tão maiores do que a nossa alegria. É assim o nosso ego, a nossa teimosia, a cegueira que nos amordaça. É por isto que nos doem as flores e os dias luminosos… 

Mas é possível fazer das mãos cúmplices do sol, e acariciar o coração como se protege o pinto vacilante saído do ovo. Beber da alegria pequenina de caminhar sobre este chão por vezes destroçado, mas caminhar ainda, ou sentir o frémito da força esquecida nos pés. E digo, é possível ser feliz. 

Hoje sou cúmplice do sol, e as minha mãos das pedras vivas, e a minha boca do sal e do sumo das laranjas. 

Hoje pode ser nossa a alegria prometida às aves. É só agarrar o sopro, e o voo daquele pássaro. E ser cúmplice da felicidade. 

A escolha impossível de ser feliz

Escolhe. A cada momento, sê o capitão da tua Alma. Usa tudo: os pés para caminhar, as mãos para alcançar. Usa o coração e a razão, em partes desiguais. Procura, pesa, mede, desperdiça e guarda. Mas escolhe. Escolhe tomar parte da vida e, verdadeiramente, viver. Escolhe viver, mesmo que doa cada fôlego e cada pestanejar. Depois, escolhe ser bom. Não faças o mal. Conta a tua história na exata medida do teu amor. Desvenda o teu ser no cuidado a cada flor, a cada pétala, a cada criança indefesa num animal que que já é grande. Distribui Amor, sempre, mesmo que vivas por agora na toca da tua tristeza. Começa no início. Começa por aquilo que és e te anima, por dentro, um animal pequeno que aprende a andar. Conta como és quando deste tudo, mesmo cansado, mesmo desiludido. E, de repente, não deste nada, porque duplicaste de tamanho, em tanto que te devolveram. Cultiva o teu sorriso. E, quando por ti vires nascer um sorriso no rosto de alguém, acolhe o mundo no teu coração que, quase demasiado cheio para bater, se imobiliza numa felicidade impossível.  E, quando morreres, não morres de verdade. Vives em todos os que amaste. E isto basta. Por isso, escolhe. E escolhe bem.

Uma colina para a minha esperança

Esta é a colina desenhada para repousar a cabeça, ouvir a relva a crescer, sentir o afã do caracol que lambe o chão que passeia o seu corpo, lânguido e húmido. Esta é a hora que precede o nascer do sol, as cores que rasgam o céu num lusco-fusco que acorda o mundo pequenino, de todos os que anseiam o que vai nascer. Este é o leito do rio onde sacio a minha sede de viver, bebendo aos supetões, num fôlego de água que escorre para o sulco dos meus seios, prenhes de desejo. Este é o regaço de árvore velha, que acolhe os meus lábios, anéis de desvelo desenhados na madeira mais dura, da tenacidade de quem soube esperar, sob ventos e tempestades. Este é o momento em que, ao invés de proclamar ao alto a minha intensa felicidade, sento-me no lugar mais afastado do mundo, aqui dentro, no fundo do mar ou no centro do furacão. E contemplo devagar, como se desembrulhasse uma noz, camada por camada, página a página, segundo a segundo. E quero aprisionar-me neste momento de perfeição… da felicidade arrancada à mais intensa dor. E agradeço, cada uma das estrelas deste imenso céu, uma e outra vez, agradeço esta luz emprestada ao meu ser, e que agora brilha em tudo, através de tudo.

Este é o tempo de ser feliz de mansinho. A hora do lobo dormir. Esta é a colina onde repouso a minha esperança.

Estradas Secundárias

Há um sítio secreto atrás do teu leito, do teu rio a querer jorrar para fora da tua alma, há tanto tempo escondido, nos muros e veredas do teu coração, da tua fortaleza inexpugnável.  Fui procurar à margem de tudo o que se vê, debaixo da superfície, atrás da vista do mundo. Fui buscar às ruas secundárias, distantes das estradas bonitas que vão dar a caminho algum com o Teu Nome. Lancei-me à margem de mim e de ti, atrás, lá longe e depois do último pôr-do-sol. E encontrei. Encontrei os limos lânguidos com a cor do teu segredo, a humidade fendida sob os meu dedos tacteantes, escorregadios do teu suco de frutos,  demasiado frágeis aos elementos; ao vento e à chuva e à língua molhada dos meus beijos, abrem-se alternadamente, hesitantes na sua dádiva de polpas demasiado verdes, demasiado jovens, mas incrivelmente prontas. Há um segredo original na tua terra pantanosa, lodosa e larga, como um nenúfar pronto a receber a flor, a nutri-la e a entrar nela com raízes profundas, debaixo de água, quente e fumegante, como o teu amor sussurrado no último fôlego antes de adormecer, para sempre. Somos pântanos perdidos um no outro, na jangada de ti em que agarro como náufraga, ao teu leito que encosto à minha margem e, no meu centro, finalmente enraizado em Ti, neste caminho escuro que encontrei até Nós. E agora, perdidos, sujos e molhados, nesta tempestade tropical, temos um rio enorme, transbordante de vida e de cálidos murmúrios de amor, como pássaros inaugurais, cantando pela manhã, mesmo à margem, de Nós e do Mundo.

As vidas sonoras do coração

Quantas vidas sonoras tem o meu coração?
De tambor descompassado,
À mais doce flauta enfeitiçada,
A concha estéril ecoando o mar.

Numa outra vida sonora,
O meu coração calou-se num murmúrio.
Tão baixo, que não se sabia com voz
Tão lento, que desesperava o próximo fôlego.

E, durante muito tempo,
O silêncio,
O som da engrenagem,
A mecânica de existir.

Quantas vidas sonoras tem o meu coração?

Agora, nesta vida sonora,
De canto de pássaro ferido,
A ocarina doce e secreta,
Ao sussurro doce de quem recomeça.

Voltar a ser a música que vem dentro,
Um canto que nasce daquele sítio
Onde, afinal, voz alguma morre.
Apenas espera, num lento compasso,
A batida certa para soprar,
O canto certo para entoar.

Quantas vidas sonoras tem o meu coração?

Muitas, não consigo contar.
O segredo está em nunca parar de cantar.

 

Desvendando segredos

Desvendo as tuas montanhas,
que de verde se fazem florestas,
e de branco se vestem vastas
planícies de neve incandescente.
Descubro os sítios secretos
onde passeias desgostos e
guardas imperfeições, longe
de olhares estranhos. Ninguém,
ninguém como eu, vê como
Se desfazem em risos os cantos
dos teus olhos. Como
é de luz que se vestem as tuas
Mãos, que se estendem em dedos
infinitos, intensas impressões nos
lençóis, de pele e de seda, porque
assim é a tua alma, nua e delicada.
Ninguém, ninguém como
eu, vela contigo noites de insónia,
e con􏰀tigo chama o sono, sussurrando
e tecendo sonhos. Eu vejo as
Intrépidas paisagens no teu ser.
Vejo os sulcos de miséria, as
abóbadas celestes que acenaste
Na infância, terra de cores e desertos
frios e com pedras, porque a areia
se esgotou por entre o Tempo.
Vejo como esperas em quarentena.
Entardece, mas dentro de ti􏰀 cai
Noite gélida. Ninguém como eu
Espera a aurora para nós,
Porque é de orvalho inaugural
que é feita a nossa sede.
Cá dentro, espero-te,
Ainda é cedo para te morrer em Esperança.

Um lobo no coração

Olha com atenção, é um lobo das estepes. Destemido, com tempestades no coração.

Por vezes, ergue-se do alto da sua coragem cega e morde o céu.
Rasga o seu ventre azul e
Pedaços de nuvens desatam a cair, como neve gélida e pura,
Que deliciosamente pousam na pele,

E derretem algum tempo depois.

É um lobo casmurro de pêlo áspero e de pele frágil.
Caminha na estepe gelada, secretamente a suspirar o sol.

Ao lobo das estepes não lhe conhecem os segredos. Nem ele os sabe.
Caminha cinzento por entre as árvores.

Por vezes, olha para o alto, para as estrelas.
E, por entre nebulosas a morrer,
Ele vê a ordem que precede ao caos. As suas cores impossíveis,
Desenhando-se no breu ancestral.

E fica um pouco triste, um pouco assombrado.
Uma felicidade pequenina instala-se no seu coração de garras.
Ele vê minúsculos milagres e acredita.
Ainda é possível ser-se feliz. Mesmo nas estepes. Mesmo sendo um lobo.

Deixar partir devagarinho

A tristeza discorre do Ser como uma pequena nascente água fresca, que irrompe a terra num diminuto mas audaz movimento. Ninguém sabe desta minha tristeza; tal como ninguém conhece a pequena nascente de água, só o solo mais próximo e as plantas mais rasteiras sabem da sua presença e do seu efeito. Só elas bebem do seu sentimento melodioso, do seu correr ininterrupto, que inunda, tímido, o incauto coração. A tristeza de todas as coisas abortadas, de todas coisas que eram para Ser e morreram antes de florescer em abundância. A dor do que não foi, mas sonhámos ser, imprime na Alma como a pequena corrente no solo – devagar e inexoravelmente – e deixa uma fenda na terra. Vista do céu, esta tristeza, nada mais é, do que um poça de água insalobra, enlameada e com com folhas mortas à superfície. O verdadeiro milagre, é que se deixarem correr a tristeza livremente, como um fluxo de lágrimas insignificante, ao fim de algum tempo, o solo irá multiplicar-se em verde e em vida. E alma voltará a brilhar, limpa como a natureza depois da chuva. O segredo é deixar correr a água; o milagre é deixar morrer a tristeza. A força está em permitir-se deixar partir, para ficar o que um dia irá fluir como a maior de todas as cascatas.