O tempo infinito das estrelas

Quando fui mãe, revisitei todos os lugares onde já tinha estado e todas as botas que havia calçado, sapatos grandes ou demasiado pequenos, envernizados e novos ou toscos e velhos. Voltei a ser criança, a precisar de colo. Voltei à criança que ouvia as histórias da avó e que tinha saudades do pai que nunca teve, esse ser longínquo e misterioso. Voltei a estes lugares sem nome, e recordei tudo. E doeu-me como se fosse ontem. Fiquei imobilizada numa saudade impossível de tudo o que não foi, no desgosto das coisas que queremos que sejam.

Então, quando os meus pés, desnudos, começaram a avançar e os meu olhos vendo o meu filho a crescer, resgatei a criança que ouvia a avó, dei a mão ao seu pai de longe, abracei a sua mãe solitária. Porque todos eles fizeram o melhor que podiam ter feito, naquele tempo, naquele espaço.

Agora é a minha vez de perdoar e, olhando a minha pequena família debaixo do céu estrelado, acalento a esperança de também ser perdoada, quando a vida se renovar.

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Amor Quântico para Patetas

Há sempre tempo para olhar o mundo.
Há formigas que levantam mil vezes o seu peso numa pequena folha.
Há pedras grandes e lisas como a lua.
Há praias de infinitos grãos de areia.
Há ondas que se desfazem com violência apaixonada sobre as rochas.
Há ventos suaves que cheiram a comida quente das avós.
Há tempo longínquo e tempo que ainda está por vir.
E há este amor novo e eterno, como um pequeno pássaro no peito, um bater de asas tão rápido, que parece que se imobiliza sobre as flores.
Há sempre tempo para sentir este amor, uma força inominável.
Quero falar, mas são palavras.
Quero gritar, mas é apenas barulho.
Quero mostrar, mas é apenas um gesto obscuro.
Então, vou deixar-me somente sentir. E, sentindo, é como se uma estrela nascesse aqui no meu peito sempre que inspiro, e outra estrela implodisse no meu íntimo quando expiro. É um Amor sem nome, é uma força sem tempo nem espaço.
E agora, quando me deixo aqui na esquina do mundo a contemplar os que amo, sei o que Universo me olha na sua consciência omnipresente. E eu sou esmagada pela verdade impossível de existir.

É Amor, é o Big Bang no meu coração, uma e outra vez.

Ser feliz é ser pequenino

Nestes tempos, é a vez do urso solitário dormir. Retira-se o lobo das estepes para a gruta tranquila.

Não há mais lugar ao branco grande e gelado das neves, das estepes longínquas onde vagueava só.
Não há mais espaço às florestas escuras, aqui dentro e debaixo dos pés, intermináveis e sombrias.

E à vezes lembro-me desse tempo, do urso e do lobo, e fico grata por renovar todas coisas, finalmente.

Agora, é o tempo da luz intensa, do cão fiel e alegre, do gato lânguido nas varandas, do pequeno pássaro a namorar as flores.
Este é o tempo do Amor Imenso, aquele que explica as galáxias a afastarem-se, as estrelas a nascerem, o cantar do mar dentro dos búzios. E então, é um sentir inexplicavelmente silencioso! É uma alegria pura ao entardecer, naqueles segundos em que se descobre o primeiro passo, a primeira gargalhada, a primeira palavra. É o tempo da descoberta dos desfiladeiros íngremes, dos mares salgados, dos vulcões submarinos. Descobrimos juntos a inocência de nascer de novo, de nos revestirmos da matéria bruta de que somos feitos, humanos ignorantes e perfeitos.

Pensava nesta altura contar ao mundo do nosso amor recém nascido.
Mas este amor é pequenino e tímido como qualquer coisa neste mundo que agora começa a ser. Esta alegria de existir é plena aqui dentro, é um sentir tão íntimo… são as luzes do norte a dançarem nos céus escuros.

E tudo acontece cá dentro, e lá fora, apenas um breve restolhar das folhas a partirem-se, da água a borbulhar sobre as rochas, das campainhas das flores sob a brisa.

Mas nós sabemos ter borboletas cá dentro. E que a alegria é íntima e apenas contamos às estrelas e às flores como somos felizes. E é para sempre.

A teoria de Tudo

Não sabia que serias assim, grande, sólido e transparente, derramando-se em todos os espaços, como uma luz intensa que banha até ao íntimo.
Não sabia que assim que te visse, em ínfimos gestos que quase agitam nenhum ar, tornar-me-ía mole e líquida como lava fumegante que sulca irremediavelmente a rocha firme.
Não sabia que jamais voltaria a pertencer a lugar algum, que não ao espaço exato que ocupas, a minha medida seria o limite da tua existência, o meu tempo para sempre contado a cada suspiro teu, imobilizando-se a cada bater do teu coração.
Não sabia, porque não concebia tal saber, tal estória impossível narrada ao infinito, ao pormenor de cada poro da tua pele acetinada, de cada cabelo em curva dourada contra o sol.
Não sabia que seria assim, imenso, dolorosamente feliz e pleno.
Não sabia até ao momento em que ele me atinge, a sua força como uma vaga que se enrola na areia, hipnotizando o olhar e enchendo o coração de temor.
Não sabia que amar é uma palavra apenas e isto… Isto é uma força insondável do universo, que quero agarrar e guardar, qual pequeno veado indefeso acabado de nascer.
E não posso, não posso agarrá-lo, nem prendê-lo, ou guardá-lo. Só posso sentir. E deixar viver. E consumir-me nele, até ao fim, até sempre, meu amor pequenino.

O Tempo Interminável

Tempo para ver a luz brincar com nos teus cabelos.
Tempo para cheirar a tua pele atrás da orelha.
Tempo para ouvir a folha sucumbir sob os teus passos apressados.
Tempo para sentir o bater do teu passarinho dentro do peito.
Tempo para dançar na tua gargalhada.
Tempo para sentir saudades, mesmo quando ainda te tenho na palma da mão.
Tempo para saborear cada pedaço desta maravilha de estar vivo.
Tempo para agradecer sentir amor, mesmo quando dói um pouco.
Tempo para compreender a tua verdade e aceitá-la, como a nossa própria verdade.
Tempo para gravar no coração as imagens que cativam a Alma.

Não esquecer nunca – este tempo que é pequenino na passagem, mas interminável no sentir.

Há sempre tempo para ser gentil, aqui dentro e para o mundo.
Há sempre uma frágil flor para amar e cuidar.
É parar e olhar em volta – reconhecer, aceitar, agradecer.
Até para o Ano, um Bom Ano, fazendo do Tempo Interminável para as coisas felizes.

Alma de Gigante

Sei bem que és pequenino,
E puro como a gota de água no
Teu cabelo molhado, caracóis de
Seda translúcida, sob a luz do entardecer.

Sei bem que és valente, no
Teu passo vacilante, buscando
Estrelas no caminho pedregoso,
Na estrada de ar desenhada no horizonte.

Bem sei, és pequenino, mas
Gigante nesse teu ser precioso,
Imenso neste ano de vida, de
Assombro pelo milagre de existires.

Obrigada, meu ser pequenino,
Sou pequena perante o nosso amor
Por ti. Por todo ti, sorrisos, alma e verdade.

Por ti, para sempre e até ao infinito.

Boa noite, meu amor, vamos com aves.

A arte esquecida de ler poemas

Hoje li um poema. Todo, integral, até ao fim. E há quanto tempo não lia estas palavras musicadas ao som do coração, doces como os desejos gulosos do corpo, tempestuosos como as lágrimas feitas ondas rebeldes. É preciso espaço aqui dentro para ler um poema. Desenrolar a sua cadência debaixo da língua, desdobrar os trocadilhos e descobri-los sem manha, nas esquinas de sombra. Sentir que se vive outra vez, apesar do barulho dos dias quase sempre iguais, porque afinal o sol nasce sempre do outro lado do mar. É preciso ler poemas. É preciso ver uma flor a desabrochar. É necessário sentir a gota de chuva a caminhar como um caracol no vidro. É assim que cai o tempo na alma, com sentido e com peso.
Não esquecer que se vive. Não abafar em controlo das coisas, sufocando o sentir.
Hoje, leiam um poema. Ouçam uma música bonita. Hoje, vou dar um beijo com barulho e saliva nos meus amores. E devagar, desfrutando, vou sentir a sua presença, o seu fôlego doce, a sua maravilhosa existência em mim. E vou sorrir. É tão bom estarmos vivos.

Coração vezes infinito

A demanda pelo controlo da mente é a maior e a mais difícil batalha do homem sobre a terra. Da mente, consciente e inconsciente, emerge a criativa realidade que vivemos e todos os castelos e estátuas que erigimos às circunstâncias selvagens. O pensamento como força brutal que comanda as marés do maior oceano do mundo. É preciso coração bravo para manter as rédeas deste cavalo louco. E o que fazer quando somos três ou quatro vezes coração para uma mente teimosa e errante? Eu sou muito coração, tanto, que transborda e sente tudo tão profundo, que custa respirar, olhar a bússola e encontrar o norte.

É verdadeiramente pecado amar demais. Mas é preciso colocar o Grande Amor em tudo. E é preciso vigiar a mente com a frieza de soldado à atalaia na noite escura. Onde está o equilíbrio? Onde está o fio condutor a que nos agarramos e balançámos perigosamente no penhasco?

O Grande Amor deixa-me em desorientada no mapa da mente. Coloco a capa deste sentimento grandioso e, por vezes, não consigo enxergar a verdade sobre mim mesma. Tenho de manter olhos, ouvidos, mãos e algum coração abertos, observar-me e mudar de dentro para fora…

Ser a noz que se guarda até o interior estar macio e uniforme, força amorosa e solar para se expor ao mundo.

É grande o trabalho para os que sofrem deste coração transbordante. Não perder a ternura e não me perder no Caminho.

É verdadeiramente pecado amar demais. E eu não sei amar de outra forma. Então tenho de domar este potro louco com a rédea que me coube em sorte. E ter esperança.

Imagina Dragões

E, tempos depois, perante um deserto grande frio, com pedras lisas e alvas como a lua, que ficou lá trás, eis que nasce um dia brilhante, em que a nossa estrela é a mais alta no céu.

Não interessa se ainda é de dia, se a noite ainda não desceu, se os nossos olhos ainda não se acostumaram com esta luz cega, que rasga o véu da realidade.

Não interessa se temos medo, não da noite ou do frio, mas da luz de milhões estrelas, porque não parece possível ser feliz outra vez.

Não interessa de somos humanos a fingirem ser deuses.

Não interessa, na verdade, porque somos dragões brilhantes a passearem este céu escuro, de caudas entrelaçadas, cuspidores de fogo e de outras mágoas… Somos dragões a mostrar as árvores e as flores ao nosso filho. Somos reis e senhores no trono desta dor antiga, e por esta dor e desgostos, brilhamos hoje num fulgor imenso.

Imagina-nos, dragões brilhantes cruzando os céus, sobre as cabeças dos demais, que procuram cegos e surdos um Amor assim, desmesurado e eterno.

Imagina dragões que ousam tecer redes e, com elas, pescar estrelas para iluminar o coração.

E, pecado maior, imagina sermos felizes outra vez….

Voltar à aldeia

Falta-me a aldeia, grande nas suas gentes pequenas e espaços curtos. Tudo perto, mãos entrelaçadas, sorrisos de esguelha, alegria aos tropeções.

Falta-me a aldeia, luminosa, com casas brancas de porta aberta, com mesa posta, aromas doces e um lugar alto vazio, para aquele que tarda mas sempre vem.

Falta-me a aldeia, em que a única solidão era a de dentro e um choro que nunca era só de um. O amparo vinha de um mesmo colo, largo, com as lágrimas do mundo.

Falta-me a aldeia, falta sentir-me uma mulher da aldeia, onde o vazio rodeia mas não entra.

Porque na aldeia, a solidão faz-se multidão, o vazio sucumbe às vozes estridentes e o silêncio é o bálsamo da natureza, a calma dada aos pássaros e aos dias.

Faz-me falta a aldeia e as suas pontes para atravessar os abismos.

Agora a aldeia sou eu e tu e esta casa silenciosa a ecoar a solidão de dentro. Os brancos são são mais amplos, as montanhas mais frias.

Falta-me a aldeia…