Pequenas Tragédias

Todos temos Pequenas Tragédias. Às vezes alguém parte, às vezes é uma janela a fechar, ou por vezes, é só uma página que se mantém em branco ou uma árvore por crescer.
Mas as pequenas grandes dores vêem sempre, tão certo como a luz e a sombra.
Nunca se explica ou se termina, propriamente, estas coisas de doer.
Só se deixam passar, como ondas, como brisa, e a elas se sobrevive, para depois se começar a viver, a sério.
E então, reescrever estas dores em coisas bonitas, em aprendizagens, em tatuagens coloridas, na Alma.
Numa roupa fresquinha de flores, que se veste mesmo não se sendo criança, num dia não tão quente. Apenas porque sim.
Continuar a viver e resignificar a dor é propósito suficiente.

Vencer o aquário… rumo ao mar

Começa com um dia perfeito de sol. Os risos e os sons habituais do mundo.

De repente é difícil respirar.

Um aperto no peito, uma inquietação nas mãos, um fraqueza de alma que me deixa a tremer.

E não se sabe de onde veio nem quando acabará.

Há apenas um bater descompassado do coração, que se impõe a todos os sons.

É então que faço o tempo abrandar uns segundos. O espaço estabiliza comigo ao centro, pernas afastadas para sustentar, raízes profundas a penetrar a terra.

Respiro uma e outra vez, bem fundo. Dói um pouco expirar, a princípio. Mas insisto um pouco mais.

Às vezes uma espada e um escudo se desenham nas minhas mãos. Endireito as costas, sinto uma força nova a percorrer a minha coluna vertebral, como um pequeno choque elétrico.

Imobilizo a minha mente e o meu coração no mesmo círculo seguro. O aqui e o agora, a margem segura do meu pânico.

Recuo do abismo e recalibro a bússola.

Dou um passo. E depois outro.

Eu sou capaz. Ainda continuo aqui.

E o milagre se ergue de novo sobre duas pernas.

À conquista de mim mesma.

Vitoriosa.

A paz das Coisas Selvagens

Quando o desespero do mundo me toma

E a angústia floresce no meu peito

Caminho na floresta, à beira do rio.

As árvores altas inclinam-se brevemente ao vento.

As nuvens reúnem-se no canto do azul céu

Os pássaros chilreiam algures, quase que ouço o restolho das suas asas.

A quietude da água encontra-me num senso de paz.

Uma sensação trepidante de frescura, um assombro sereno de quem se deixa ir.

Ao ritmo natural das coisas. Ao sossego depois da tempestade.

Ao ventre materno, quente e líquido, depois da vida áspera dos dias.

E as batidas do coração se aquietam na paz das coisas selvagens.

De alguma forma, estou em casa.

Os blues do desejo

Diz-me, Alice, porque estás triste?

Porque te demoras nas coisas, como se estivessem longe, ou partido há muito.

Porque os teus olhos têm peixes de pequenos aquários, sonhando o oceano longínquo.

Porque seguras as sementes nuas nas mãos, como uma promessa vã de flores

E fixas o vazio com avidez, com a alma ferida pelo desejo.

Porque querer dói, e não querer, é morrer devagarinho.

Vive depressa, Alice, mas não te demores no desejo.

Gasta todos momentos, não guardes nenhum na memória daquilo que podia ter sido

E não foi, afinal.

Vês, Alice, consome a tristeza com parcimónia. Não deixes que te receitem alegria como um qualquer remédio. Digere a tristeza, porque ela também é natural.

E depois, deixa entrar a luz de um novo dia.

Eu sou a Árvore

Hoje vi uma árvore de aloe vera enorme, crescida em todo o seu esplendor, na plenitude das suas possibilidades. Pensei como, erradamente, via o Aloe Vera como um cacto robusto de jardim, orgulhoso mas pequeno. E afinal, como cresceu, sem que lhe emasculassem a força viril, sem que lhe aprisionassem a semente vital ou lhe limitassem os movimentos. Ou mesmo, tendo ele próprio tomado conhecimento da sua verdadeira natureza, ousasse ele crescer, estendendo as suas cores, a sua robustez, o seu desafio à morte, à mediocridade e à escassez, debaixo do céu estrelado ou do sol ardente.

Quantos de nós acabam por ser arbusto de jardim, quando, cá dentro, somos árvores emancipadas de força, de altura que rasga o céu e aponta aos astros. Quantos de nós negam em si, as suas possibilidades infinitas, deixando que determinem os outros e nós mesmos, ilusórios limites de espaço, de propósito, de capacidade. Somos nós que deixamos ou que nos fazemos pequenos. Somos nós que abortamos estrelas, que não acreditamos que cada um, terá afinal, uma super nova para nascer.
Olhemos para nós como possibilidades… Como sementes lançadas ao vento, prontas a serem acolhidas, nutridas ou, desgraçadamente, abafadas em pedras, soterradas em terra rala, asfixiadas numa sede e numa fome nunca saciadas.
Sejamos o que podemos ser, em toda a medida.
Somos um sonho que se ergue em duas patas.
Que o deslumbramento não acabe nunca.

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Dar a mão ao medo e saltar o abismo

Há três anos, estava a uma longa e misteriosa noite de reencontrar um grande amor. O meu filho veio, finalmente, ao encontro deste mundo. Ainda hoje e para sempre, me parece que este amor não é deste mundo, este Amor original que irrompeu no peito com o Terror e a Maravilha do início dos Tempos. Longo Caminho, longas penas, longo o encantamento desta viagem juntos. Sinto que como ser humano, como mulher, aprendi tanto que os recentes cabelos brancos não o expressam adequadamente. Porventura um rosto de mil rugas e uma cabeça feita de fios de neve fossem mais certos…

Aprendi tanto porque amei; doeu muito e, por vezes, uma felicidade plena calou todos os murmúrios. Sou feliz, tão feliz, sempre que lhe acaricio os caracóis lambidos pelo sol e ouço o cristalino das suas gargalhadas.

E então… talvez não devesse hoje e ontem, encher-me de tristeza, de dúvidas e dessa velha ave de rapina, a ansiedade, com a sua mão descarnada sobre o meu coração. São estes tempos de medo e de doença, são estas gentes pequenas, é a mudança como uma onda gigante sobre a praia indefesa. É talvez o orgulho, as velhas roupas que teimamos em não despir, o medo de nos vermos nus sem reconhecer quem somos.

E é tudo isto, e penso que já não devia sentir-me assim, é o desejo de que as coisas sejam de um certo modo e nunca o são. O rio que corre livre sem escolher as margens… E a culpa, imensa como um céu estrelado sobre a cabeça.

E aquela sensação como um lento afogamento. Ai meu Deus. Então lembro que sou uma criança a aprender. Sempre o serei. E se voltei a este sentir, talvez tenha de mudar algo e aprender novo. Se dói? Oh mas que dor escarpada, que alfinete neste músculo dorido. A dor de viver, viver de verdade e acordada neste mundo sonâmbulo.

E então lembro da hora vespertina em que o meu filho nasceu de mim, a força feita grito que me fez sentir uma montanha gigante a parir uma fonte de água. A força incrível que cavalguei, potro selvagem à solta, no topo do mundo a expelir a vida em soluços. O amor, a glória e o medo. E pensei: é assim que nascem estrelas.

Talvez também um novo mundo esteja a nascer, para mim, para todos. O antigo não serve mais, e o novo ainda não sabe habitar neste mundo em transição. Vou dar a mão ao medo e lembrar-me que, quando o meu filho nasceu, também senti medo. Mas senti primeiro amor e a força que move montanhas. Não há obstáculo demasiado alto ou longo para quem ama assim.

E é esta a nossa força, a dos que amam demais – nunca desistir.

Os monstros precisam de amigos

Olha o outro do alto de si mesmo. O outro que te fere, que te afasta, que te enfraquece. Fá-lo presente diante de ti, e olha-o longamente. Então, permite que a raiva, a dor e o resssentimento, aflorem. Mas não te prendas neste olhar.

Respira. Espera um pouco e olha de novo. E diz,

Esta pessoa é um ser humano, tal como eu.

Esta pessoa nasceu nua, tal como eu.

Esta pessoa tem fome e sede, tal como eu.

Esta pessoa já experimentou a dor física, tal como eu.

Esta pessoa já sofreu mais do que pensou suportar, tal como eu.

Esta pessoa sente-se só e inadequada, por vezes, tal como eu.

Esta pessoa já tentou falar, e foi silenciada, tal como eu.

Esta pessoa merece gentileza e empatia, mesmo quando não merece, tal como eu.

Esta pessoa sou eu, por vezes, e tal como eu, precisa de perdão.

Este Outro que me fere, por vezes, sou eu. E eu mereço compaixão integral.

Este monstro, cá dentro e lá fora, precisa do meu amor.

Envia-lhe o teu amor, seja com um sopro, um pensamento ou um desejo.

E fica em paz.

Caçar Borboletas

Dias preguiçosos nas colinas, tantas

Flores amarelas e roxas, em pequeninos

Botões alteando-se ao sol, cheiros

Inebriantes de mata e de liberdade.

Elas voavam felizes, as borboletas

Asas de tantas cores, como as flores,

Como a nossa felicidade, pequenina,

Plena. Perfeita. E breve.

E caçávamos borboletas aos supetões,

Que batiam, frenéticas, as asas

E nas barrigas pulsavam, a compasso

Sem ritmo, sem nome, mas imenso

Em perpétuo movimento.

Ah a felicidade assim, livre

O prazer de senti-la nas mãos,

Para de seguida a soltar, aos elementos

E às outras coisas do mundo natural.

Assim devia ser tudo, a felicidade

Como as borboletas.

Eu + Mundo = 1

Eu sou a Terra. A terra não é minha.

A terra nas minhas vísceras. A terra na areia. A terra nos meus ossos. A terra nas rochas. A terra nos meus sentidos. A terra nas árvores.

Eu sou o Ar. O ar não é meu.

O ar nos meus pulmões. O ar no vento. O ar no meu sangue. O ar nas grutas. O ar na minha garganta. O ar no corpo do violão.

Eu sou o Fogo. O fogo não é meu.

O fogo nos meus músculos. O fogo nas fogueiras dos campos. O fogo em movimento nas minhas células. O fogo no lume das casas. O fogo na minha pele. O fogo no ventre dos vulcões.

Eu sou a Água. A água não é minha.

A água no meu cérebro. A água nos rios. A água nas minhas lágrimas. A água na chuva. A água no meu suor. A água no pântano.

Eu sou a vida. A vida não é minha.

E não é tua. E não é dele, nem tampouco é dela.

Porque todos somos terra, fogo, ar e água. E o sopro da vida nos anima, e caminhamos por hora neste planeta.

Todos somos Um.

Nasceu um pássaro na alma

Dias para silenciar o mundo fora da janela. Dias para fazer nascer pássaros no peito. Dias para lembrar de que somos feitos… de vento, de brisa, de sol, de sal, de chuva e de orvalho. Das coisas efémeras do mundo. E das coisas eternas também, do pó das estrelas, do amor e da saudade. Às vezes, vinha a mão apertar-nos o peito. E então, vínhamos cá fora ver as flores, sentir a terra, respirar o mar. Dávamos as mãos devagarinho e amavamo-nos pela noite ensonada. Continua a ser verdade este amor, este compromisso que nos leva parte de nós e nos devolve ainda mais, partidos de nos querermos tanto; inteiros no horizonte comum.
Nasceu-nos hoje um pássaro no peito. Mesmo na despedida. Pousou na janela e disse adeus. Com o medo no bico e coragem nas asas. Até depois, companheiros.