A marca de todas as tristezas

Foi o dia mais triste de todos os dias tristes da minha vida. Porque foi o dia em que vi a verdade e ela se afundou em mim, como um barco se afunda num pântano, em lenta agonia. Via pela minha janela o mar, uma baleia solitária ao fundo, imensa, a bater ritmicamente na água. A cada mergulho suspendia a minha respiração na incerteza de a voltar a ver. Tinha um livro no meu regaço, letras como pernas de insectos sem sentido, empoleiradas umas nas outras. E eu lia, não sei bem o que lia, senão que os meus olhos se moviam, e o meu peito se erguia ao respirar, e que o meu coração batia e me mantinha quente. A tristeza imobilizava o meu centro de gravidade, como se estivesse suspensa por cima do mundo. Fomos comer. Sentei-me à mesa e alimentei a minha náusea de tudo. E uma estranheza me acompanhou todos os dias, a partir desse dia. Como se algo estivesse fora do sítio ou como quando se esquecem as chaves de casa do lado de fora. Eu estava do lado de fora de mim, na margem errada de nós. E sabia-o. E angustiava-me com esse conhecimento, como um prenúncio de tudo o que viria depois: a morte, a falta, a ausência.
Hoje recordo esse dia como a marca de todas as tristezas. Uma tristeza como que um luto. A morte de um sonho, a morte de uma fé. Dias como este são para recordar o que de mim sobreviveu depois. E, não obstante esse dia, outros dias vieram sem a sua marca indelével. Quase felizes. Mesmo sem janelas com uma vista sobre o mar.

Manter os lobos à porta

Para ouvir com  A wolf at the door de Radiohead.

Tenho o lobo à espreita. À porta. Ali em baixo. Às voltas no chão, a viciar o ar. Está aqui dentro. A brincar com os meus pensamentos. A roubar-me as crianças. A roubar-me os sonhos.
Eis o lobo que me chama. À beira do pensamento, na vertigem do sono. Quero dormir e vejo-o, cinzento, os dentes a tremerem, de lascívia e de sangue. O lobo à espreita. O elefante branco no meio da estrada. O pato sentado à espera do caçador.

Os meus monstros.

O meu sangue, as minhas feridas, o meu sono.

Hoje vou deixá-los todos lá fora, do outro lado do pensamento, do lado escuro da lua. Vou só, navegando até à lua. Sem eles, sem a parte de mim que pesa. Só com a leveza de quem se vê despojado de tudo. E tudo lhe basta.

Tempo de ser lobo

Este é o tempo do lobo. Sem matilha, sem dono.
Vagueia pela floresta, densa, o lobo cinzento sem coração.
Alguém o viu, a este coração estilhaçado e dilacerado.
Batendo baixinho, por entre as folhas, como se tivesse vergonha por ainda existir.

Este é  o tempo das espetes geladas, onde caminha, hesitante, o lobo.
Não sabe se vive, se respira, tem medo de uivar e, ao saber-se vivo, querer morrer.

Que tempo é este, em que um lobo já não sabe que o é.
Passou… é a sua sombra, é o vento?

Anoitece. O lobo aquieta-se debaixo da neve. Procura o calor que sabe existir lá dentro.
As veias e as artérias engurgitam-se no velho hábito de se encheram de sangue.
Gorgolejam em nada, como a agonia do moribundo. Sem ar, sem sangue, sem vida.

Hoje será a noite, a neve e as estrelas a pulsarem  ao invés do coração,
Desaparecido, escondido ou esquecido.
O lobo espera o regresso do coração como se espera a primavera:

Ela chegará. Ninguém saberá quando.

Locus Solus – Lugar de mim

Fica. Aquieta-te ao meu ouvido. Quero sentir a tua respiração no meu pescoço. Tão perto, que as tuas pestanas dardejam na minha pele. Um prazer insuportável, só meu, só teu.
Fica. Toca-me aqui dentro, sem mãos, com a tua ausência, com a tua impressão nos lençóis, ainda mornos. Com a certeza do teu regresso derramada ao meu lado.
Fica. Finge que não é de vidro esta parede que nos separa. Finge que é uma lágrima gigante suspensa entre nós, que parece vidro, que parece lupa, a aumentar a dor e o amor.
Fica. Ao fundo do corredor, ainda com o eco dos teus passos, ainda com as lâmpadas tremeluzentes que se agitam à tua passagem.
Fica. Antes que eu descubra que nunca exististe. A não ser aqui dentro. Onde te fiz nascer, e crescer…até te desvaneceres em imprecisas sombras, por entre caves moribundas e dentro de estantes de livros que ninguém lê.
Vai, se tens de ir. Projeto-me deste sofá e já estou lá fora. E sou eu no jardim, livre, a dar comida aos patos. E sou eu, no mundo, a cheirar e beber o ar de novo. Saí, jamais voltarei onde tu estás. Nesse lugar de vazio, onde nunca houve nem haverá nada. Onde ninguém ri. Daqui a pouco. Amanhã.
Não fiques. Deixa-me. Não vês? Já não caminho. Saí a voar e fui com as aves.

Escrito a fogo no meu caderno invisível.

Querer ficar bem

Vou ficar bem. Saciada com nada. Contente no silêncio.
O meu bem vai crescer e ser muralha. E ser escudo.
Não quero um bem elástico, como um espelho de contrários.
Quero o bem que resiste ao tempo e à dor e à sorte.
Aquele bem que conforta, mesmo quando tudo é desolação.
Um bem como um tesouro ou como um bálsamo.
Vou ser o bem. Para mim, esta noite. Vou escolher o bem.
Vou escolher o sorriso. Vou escolher uma cor bonita para dormir.
Vou despir a roupa do ódio e da mentira que me impuseram.
Vou descalçar os sapatos de quem me feriu e caminhar descalça.
Despojar-me dos erros dos outros, deixar de carregar o peso que não é meu.
Hoje o meu bem é a minha escolha. A minha única escolha.