Abdicar de fantasmas

Perdoar não é um acto isolado, que se desprende de nós num único momento de lucidez. Perdoar é um processo lento, vai-se perdoando, se assim se sente esta vontade, esta necessidade de largar a âncora do passado, esta ânsia de se ser livre. Perdoar não inocenta quem cometeu o erro. Perdoar faz nascer a liberdade no coração, ao abdicarmos da tristeza, da mágoa e dos fantasmas. Nós e laços que enredam os fios do sentir, que confundem as cordas da nossa história, que não nos deixam crescer. Quem não perdoa nunca, é como um velho preso na sua casca enrugada, zangado nos seus movimentos apertados, nas rugas que encarquilham o sorriso, sentado num banco de jardim a ver o mundo a acontecer. 

Vai-se perdoando, às vezes um pouco mais longe, outras mais perto, e um dia brota a sensação de página virada. O perdão vem quando a recordação já não dói e deixamos que o rosto da mágoa se materialize na indiferença, como um barco que parte para a sua última viagem. Perdoar, é todos dias dar mais um passo. Hoje mais pouco. Amanhã um pouco mais. É olhar as estrelas e deixar morrer a saudade. É ser livre, é uma página vazia, é uma vida inaugurada, é uma alma sem peso. Vou perdoando até me perdoar. E então vou ser pássaro, sem qualquer ferida. 

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Tudo pela metade e no fim não sobrará nada completo

Guardo metade de tudo. Encho tudo a meio, preencho o resto com o vazio. Deixo a parte irmã do todo no meu lado lunar, inóspito e estéril. O lado de tudo que é nada e assim não sente. Porque o que dói é dar tudo inteiro, porque quando se perde, o que resta são destroços e uma ausência, que pulsa como o mais forte dos tambores, na noite mais escura. Como o trovão da tempestade perfeita, que passados 100 anos ainda ribomba nos ouvidos. O eco do que um dia foi tudo, perpetua-se no vale de mim, mais longe e mais alto que tudo. Que a distância que lhe diminua os passos… Que o seu eco distante torne mais pequeno o lugar que ocupa na origem, em mim. Digo tudo pela metade, mas sentirei tudo pela metade, um dia? Ou voltarei a preencher-me para me dar por inteiro, oferecer o nada que sou às balas, de peito aberto, para receber o que me couber em sorte? Talvez a verdade é que não sei ser ou sentir senão desta forma em que o despojamento é tudo. Em que a batalha é travada em campo aberto, sem cautela pela emboscada. Não sei ser nem sentir de outra forma senão aquela em que caminho descalça, com o coração numa mão e a criança de dentro na outra. Possa me encontrar sem nada e com tudo plantado na terra, à espera de que a flor mais bonita do mundo se abra.

O norte é a luz 

Acordo com o sino ao longe, cada badalada como o bater inseguro do meu coração. Dolorosamente viva, por um momento, a dor é a primeira sensação do dia. Depois, lento, o desenrolar da pele sobre os membros, os músculos que se imobilizam sobre os lençóis, numa impressão amarrotada do movimento. A surpresa de estar viva, abre uma alegria pequenina, como um nenúfar sobre o pântano.  A cada inspiração, o descompasso do meu coração e o silêncio da tua ausência, junto à minha face vem dar-me um beijo. Ergo os olhos para a janela, e os feixes de luz propagam-se oblíquos no quarto, com o pó em suspensão, como às vezes retenho o fôlego até explodir dentro do peito e transbordar pela boca e nariz, neste abandono do lamento de estar aqui e tu não estares comigo. Meu amor, nesta manhã de bandeiras desfraldadas ao vento, de pássaros feridos de uma só asa, equilibrando-se impossíveis nas árvores, vou levantar-me e dar o corpo à languidez dos segundos, porque está calor e o tédio invadiu todos os lugares. Ébria de saudade, cambaleante de desejo, levanto-me e sigo a luz que se esbate debaixo da porta. Que eu nunca esqueça a bússola de luz, o norte iluminado para sempre com a silhueta do meu amor, que se vê desde o outro lado do mundo. Sento-me ao pé da lembrança do meu sonho de ti, fecho os olhos com força e desenho a vivas cores, neste sítio só meu, por trás dos meus olhos, o retrato de mim quando te amava. E entro nele, como se entra num bosque encantado, e cada pássaro, cada flor e cada árvore, é uma maravilhosa aventura. Falta aqui tudo o que amámos juntos, e agora morreu e tenho de amar outras coisas, pequenas e grandes. Tenho de ser a formiga que se afadiga por minúsculas migalhas, sem perder a consciência de si neste mundo de gigantes. Que posso eu fazer, senão continuar a viver, sabendo o que aconteceu… Contar histórias novas à lua, abandonando a minha face lunar na noite mais escura e suspirar o dia de amanhã?