Abdicar de fantasmas

Perdoar não é um acto isolado, que se desprende de nós num único momento de lucidez. Perdoar é um processo lento, vai-se perdoando, se assim se sente esta vontade, esta necessidade de largar a âncora do passado, esta ânsia de se ser livre. Perdoar não inocenta quem cometeu o erro. Perdoar faz nascer a liberdade no coração, ao abdicarmos da tristeza, da mágoa e dos fantasmas. Nós e laços que enredam os fios do sentir, que confundem as cordas da nossa história, que não nos deixam crescer. Quem não perdoa nunca, é como um velho preso na sua casca enrugada, zangado nos seus movimentos apertados, nas rugas que encarquilham o sorriso, sentado num banco de jardim a ver o mundo a acontecer. 

Vai-se perdoando, às vezes um pouco mais longe, outras mais perto, e um dia brota a sensação de página virada. O perdão vem quando a recordação já não dói e deixamos que o rosto da mágoa se materialize na indiferença, como um barco que parte para a sua última viagem. Perdoar, é todos dias dar mais um passo. Hoje mais pouco. Amanhã um pouco mais. É olhar as estrelas e deixar morrer a saudade. É ser livre, é uma página vazia, é uma vida inaugurada, é uma alma sem peso. Vou perdoando até me perdoar. E então vou ser pássaro, sem qualquer ferida. 

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