Tudo pela metade e no fim não sobrará nada completo

Guardo metade de tudo. Encho tudo a meio, preencho o resto com o vazio. Deixo a parte irmã do todo no meu lado lunar, inóspito e estéril. O lado de tudo que é nada e assim não sente. Porque o que dói é dar tudo inteiro, porque quando se perde, o que resta são destroços e uma ausência, que pulsa como o mais forte dos tambores, na noite mais escura. Como o trovão da tempestade perfeita, que passados 100 anos ainda ribomba nos ouvidos. O eco do que um dia foi tudo, perpetua-se no vale de mim, mais longe e mais alto que tudo. Que a distância que lhe diminua os passos… Que o seu eco distante torne mais pequeno o lugar que ocupa na origem, em mim. Digo tudo pela metade, mas sentirei tudo pela metade, um dia? Ou voltarei a preencher-me para me dar por inteiro, oferecer o nada que sou às balas, de peito aberto, para receber o que me couber em sorte? Talvez a verdade é que não sei ser ou sentir senão desta forma em que o despojamento é tudo. Em que a batalha é travada em campo aberto, sem cautela pela emboscada. Não sei ser nem sentir de outra forma senão aquela em que caminho descalça, com o coração numa mão e a criança de dentro na outra. Possa me encontrar sem nada e com tudo plantado na terra, à espera de que a flor mais bonita do mundo se abra.

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