As vidas sonoras do coração

Quantas vidas sonoras tem o meu coração?
De tambor descompassado,
À mais doce flauta enfeitiçada,
A concha estéril ecoando o mar.

Numa outra vida sonora,
O meu coração calou-se num murmúrio.
Tão baixo, que não se sabia com voz
Tão lento, que desesperava o próximo fôlego.

E, durante muito tempo,
O silêncio,
O som da engrenagem,
A mecânica de existir.

Quantas vidas sonoras tem o meu coração?

Agora, nesta vida sonora,
De canto de pássaro ferido,
A ocarina doce e secreta,
Ao sussurro doce de quem recomeça.

Voltar a ser a música que vem dentro,
Um canto que nasce daquele sítio
Onde, afinal, voz alguma morre.
Apenas espera, num lento compasso,
A batida certa para soprar,
O canto certo para entoar.

Quantas vidas sonoras tem o meu coração?

Muitas, não consigo contar.
O segredo está em nunca parar de cantar.

 

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Desvendando segredos

Desvendo as tuas montanhas,
que de verde se fazem florestas,
e de branco se vestem vastas
planícies de neve incandescente.
Descubro os sítios secretos
onde passeias desgostos e
guardas imperfeições, longe
de olhares estranhos. Ninguém,
ninguém como eu, vê como
Se desfazem em risos os cantos
dos teus olhos. Como
é de luz que se vestem as tuas
Mãos, que se estendem em dedos
infinitos, intensas impressões nos
lençóis, de pele e de seda, porque
assim é a tua alma, nua e delicada.
Ninguém, ninguém como
eu, vela contigo noites de insónia,
e con􏰀tigo chama o sono, sussurrando
e tecendo sonhos. Eu vejo as
Intrépidas paisagens no teu ser.
Vejo os sulcos de miséria, as
abóbadas celestes que acenaste
Na infância, terra de cores e desertos
frios e com pedras, porque a areia
se esgotou por entre o Tempo.
Vejo como esperas em quarentena.
Entardece, mas dentro de ti􏰀 cai
Noite gélida. Ninguém como eu
Espera a aurora para nós,
Porque é de orvalho inaugural
que é feita a nossa sede.
Cá dentro, espero-te,
Ainda é cedo para te morrer em Esperança.

Um lobo no coração

Olha com atenção, é um lobo das estepes. Destemido, com tempestades no coração.

Por vezes, ergue-se do alto da sua coragem cega e morde o céu.
Rasga o seu ventre azul e
Pedaços de nuvens desatam a cair, como neve gélida e pura,
Que deliciosamente pousam na pele,

E derretem algum tempo depois.

É um lobo casmurro de pêlo áspero e de pele frágil.
Caminha na estepe gelada, secretamente a suspirar o sol.

Ao lobo das estepes não lhe conhecem os segredos. Nem ele os sabe.
Caminha cinzento por entre as árvores.

Por vezes, olha para o alto, para as estrelas.
E, por entre nebulosas a morrer,
Ele vê a ordem que precede ao caos. As suas cores impossíveis,
Desenhando-se no breu ancestral.

E fica um pouco triste, um pouco assombrado.
Uma felicidade pequenina instala-se no seu coração de garras.
Ele vê minúsculos milagres e acredita.
Ainda é possível ser-se feliz. Mesmo nas estepes. Mesmo sendo um lobo.