Voltar à aldeia

Falta-me a aldeia, grande nas suas gentes pequenas e espaços curtos. Tudo perto, mãos entrelaçadas, sorrisos de esguelha, alegria aos tropeções.

Falta-me a aldeia, luminosa, com casas brancas de porta aberta, com mesa posta, aromas doces e um lugar alto vazio, para aquele que tarda mas sempre vem.

Falta-me a aldeia, em que a única solidão era a de dentro e um choro que nunca era só de um. O amparo vinha de um mesmo colo, largo, com as lágrimas do mundo.

Falta-me a aldeia, falta sentir-me uma mulher da aldeia, onde o vazio rodeia mas não entra.

Porque na aldeia, a solidão faz-se multidão, o vazio sucumbe às vozes estridentes e o silêncio é o bálsamo da natureza, a calma dada aos pássaros e aos dias.

Faz-me falta a aldeia e as suas pontes para atravessar os abismos.

Agora a aldeia sou eu e tu e esta casa silenciosa a ecoar a solidão de dentro. Os brancos são são mais amplos, as montanhas mais frias.

Falta-me a aldeia…

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As montanhas que se fazem planícies

Aqui, da montanha que escalei hoje,

Encosta íngreme que abraço como se fosse macia

Pedras que resvalam na minha fronte

E o cume liso de céu azul, bem alto, sobre a minha cabeça.

E desta montanha tão alta, e deste corpo cansado, e deste cume tão belo

Tudo é esquecido, a montanha torna-se planície

E o arfar rápido do meu peito torna-se longo suspiro.

Tudo porque vos vejo meus, o pai, o filho, o divino de existirem.

É tão grande a comoção, que tudo se oblitera: a dor, o medo, o cansaço.

Só o amor me invade, só a gratidão me prende a este chão.

Não importa quão humana sou 23 horas por dia.

Há um segundo, uns minutos e uma hora do dia, em que sou um deus menor.

Sou um milagre impossível.

Sou a esperança e a graça.

Cheguei a casa. Finalmente.

Dizer não ao medo

Dizer não a ser inteira nesta ferida,

Negar-me a preencher o casulo da culpa com o meu corpo,

Recusar deixar crescer o medo até ocupar todos os lugares dentro de mim.

Porque eu não sou a ferida, nem a culpa nem o medo.

Eu não sou a doença, só que por vezes acredito que o que sinto é do tamanho do que sou.

E há um palco muito maior no meu ser.

Se eu me partir, ou me abrir como um harmónio… descubro o que sou soterrado em mentiras.

Eu não sou a doença. Eu sou a cura, só tenho de começar a acreditar.

Há em cada coisa aquilo que ela é e que a anima. Na flor, não é o amarelo das pétalas. No pequeno insecto, não é o barulho das asas.

Em mim, não é o que sinto… é o que acredito ser.

Vestir a Alma

Vejo-a bem, uns passos à minha frente, vestes brancas, descalça e com um sorriso rasgado no rosto. Qual flor mais perfeita e frágil do mundo. Desde que vieste para este mundo, estendes a mão para a minha criança de dentro, aquela que volto a ser quando te vejo e convidas-me a caminhar contigo. A minha criança interior tem medo e olhos cansados, de velha ferida e desconfiada, mas o teu olhar límpido envolve o meu. Eu sinto-me desnuda e, contigo, sou a primeira gota de orvalho da manhã, aquela que inaugura o mundo. Não pensei ser possível voltar a ser assim, nova em esperança, apesar de todos os destroços da vida.

És exatamente aquilo que te anima, a tua alma brilha alto, e a minha criança segue-te cega e ébria de luz, gravitando à tua volta. Esta criança desarma-me de todos os meus segredos e engenhos. Às vezes tenho vergonha do minha trémula sombra no seu encalço. Mas então, ergo os meus olhos e encontro o seu olhar luminoso, de confiança inabalável em mim. E volto a vestir-me da minha Alma, como era no início. E volto a nascer contigo.

Amar pequenas flores

A força das pequenas flores.

Pequenas flores há muito desejadas. 

Primeiro semeadas onde o terreno ainda infértil, aguarda.

Sementes adormecidas e duras como a lua. À espera. Caladas. 

Ao florescer, são pequenas. E só enormes no seu desejo, no seu grito de vida.

Às pequenas flores, o Amor Maior.

O Amor que dilacera. O Amor que transborda. 

O Amor ao que é pequeno em tamanho e gigante no que se quer mais que tudo,

A salvo do mundo, a salvo dos homens. Bem perto do nosso centro, do nosso Deus interior.

Ao meu filho, o Amor maior, em desmesurada medida, cheio de medos e imperfeições.

E ainda assim, cheio, numa plenitude que suporta galáxias e estrelas. 

A pequena flor, o meu filho, o meu Amor Maior. Que dói na alegria impossível de existir.

É pecado não amar demais… pequenas flores só se amam assim, para sempre.

A arte de saber esperar de mãos vazias

Há em tudo o que existe um ser pequenino em camadas. Como um botão de flor, dobrado em si mesmo em um milhão de pétalas, guardando um segredo impossível. A realidade das coisas às vezes é crua e simples, cada coisa é o que é, mas isso às vezes não basta. Pressentimos o palco maior onde tudo se inscreve; o ruído de fundo do Universo que nos faz por vezes perder o chão, por ser tão imenso. Aí vivem todos os porquês do mundo, toda a ordem, todo o sentido. E é tão difícil apreender este fundo essencial, esta consciência maior, esta vastidão de galáxias distantes do centro da Terra. 

E, quando as marcações da realidade nos trocam as voltas, quando tudo está certo até onde podemos sentir, e tão pronto, que nos sentimos à beira de uma grande mudança, como uma onda imparável e, mesmo assim, tudo se imobiliza, temos de nos entregar ao abismo sábio, à vontade ancestral da Natureza. 

Entregar ao que tem de ser. Sem fazer perguntas, com as mãos vazias e de coração cheio, esperar. E confiar no que parece vazio, apenas porque não compreendemos. E vai tudo ficar bem. 

À beira do mar, o mundo era nosso

À beira do mar, o mundo era nosso. E eram nossas as ondas e a espuma a lamber-nos os pés. Cada grão de areia escorregava no nosso suor, dos dedos até ao chão. E a descoberta de não estarmos sós, nunca mais, desprendia-se do nosso fôlego, ressoando pele a pele. Eram nossas as árvores altas, quietas na sua imensidão, reverenciando as folhas longas ao vento. Eram nossas as mãos dadas, ou não seriam? Não eram, agarravam um mundo a nascer, uma mala de desejos sussurrados ao universo.

Era nossa a alegria, calada. Secretos nomes que chamávamos um ao outro, apelidando os sonhos como queríamos, sem método nem gramática. Sem medir nada, sem guardar nada, apenas a sentir. E o mundo era nosso. Como hoje o é dos nossos sonhos e desejos, que secretamente enchem o berço do mundo. 

As borboletas, nossas, esvoaçavam na barriga, vivas, não metafóricas. E engolíamos tanto ar, a rir, para que pudessem voar mais alto.

E esperavamos, juntos, que o mundo eclodisse de novo, num fogo-de-artíficio ancestral.

Está quase. E só este sentir é nosso. Nem o tempo, nem o espaço, só o sentir, grande e profundo. É nosso. E não desaparecerá nunca.

Primeira noite, primeiro dia

Podia ser a primeira noite, os olhos a abrirem-se para o alto

E minúsculos pontos de luz cintilavam como se fossem sinos.

Era uma estrela, e passeava o brilho na minha Alma,

Como um luar cálido e branco que entra na janela.

Podia ser o primeiro dia, 

E milhões de gotas de orvalho forçavam o desabrochar da flor.

Como um fruto suave cuja casca fende ao mais leve toque.

Podia ser a primeira mulher,

E tu o primeiro homem, 

Nos primeiros dias e noites juntos.

E dávamos a mão à nossa criança, 

A mais frágil e a mais amada das criaturas,

Porque tudo o que começa tem uma magia ancestral,

E move os nossos corações, como mais nada os faz bater.

Podíamos ser os primeiros, ou os últimos.

Mas os únicos, nesta noite escura, que cintila como uma supernova a nascer.

Não morreremos nunca, companheiro. 

Ser cúmplice do sol

São muitas as flores que doem na Alma, mesmo nos campos floridos da memória. São demasiados os troncos mortos no chão, as folhas que cedem aos nossos passos, a poeira que nos cega e que fende a língua. Estes destroços são tantas vezes, e tão maiores do que a nossa alegria. É assim o nosso ego, a nossa teimosia, a cegueira que nos amordaça. É por isto que nos doem as flores e os dias luminosos… 

Mas é possível fazer das mãos cúmplices do sol, e acariciar o coração como se protege o pinto vacilante saído do ovo. Beber da alegria pequenina de caminhar sobre este chão por vezes destroçado, mas caminhar ainda, ou sentir o frémito da força esquecida nos pés. E digo, é possível ser feliz. 

Hoje sou cúmplice do sol, e as minha mãos das pedras vivas, e a minha boca do sal e do sumo das laranjas. 

Hoje pode ser nossa a alegria prometida às aves. É só agarrar o sopro, e o voo daquele pássaro. E ser cúmplice da felicidade. 

A escolha impossível de ser feliz

Escolhe. A cada momento, sê o capitão da tua Alma. Usa tudo: os pés para caminhar, as mãos para alcançar. Usa o coração e a razão, em partes desiguais. Procura, pesa, mede, desperdiça e guarda. Mas escolhe. Escolhe tomar parte da vida e, verdadeiramente, viver. Escolhe viver, mesmo que doa cada fôlego e cada pestanejar. Depois, escolhe ser bom. Não faças o mal. Conta a tua história na exata medida do teu amor. Desvenda o teu ser no cuidado a cada flor, a cada pétala, a cada criança indefesa num animal que que já é grande. Distribui Amor, sempre, mesmo que vivas por agora na toca da tua tristeza. Começa no início. Começa por aquilo que és e te anima, por dentro, um animal pequeno que aprende a andar. Conta como és quando deste tudo, mesmo cansado, mesmo desiludido. E, de repente, não deste nada, porque duplicaste de tamanho, em tanto que te devolveram. Cultiva o teu sorriso. E, quando por ti vires nascer um sorriso no rosto de alguém, acolhe o mundo no teu coração que, quase demasiado cheio para bater, se imobiliza numa felicidade impossível.  E, quando morreres, não morres de verdade. Vives em todos os que amaste. E isto basta. Por isso, escolhe. E escolhe bem.