Alma de Gigante

Sei bem que és pequenino,
E puro como a gota de água no
Teu cabelo molhado, caracóis de
Seda translúcida, sob a luz do entardecer.

Sei bem que és valente, no
Teu passo vacilante, buscando
Estrelas no caminho pedregoso,
Na estrada de ar desenhada no horizonte.

Bem sei, és pequenino, mas
Gigante nesse teu ser precioso,
Imenso neste ano de vida, de
Assombro pelo milagre de existires.

Obrigada, meu ser pequenino,
Sou pequena perante o nosso amor
Por ti. Por todo ti, sorrisos, alma e verdade.

Por ti, para sempre e até ao infinito.

Boa noite, meu amor, vamos com aves.

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A arte esquecida de ler poemas

Hoje li um poema. Todo, integral, até ao fim. E há quanto tempo não lia estas palavras musicadas ao som do coração, doces como os desejos gulosos do corpo, tempestuosos como as lágrimas feitas ondas rebeldes. É preciso espaço aqui dentro para ler um poema. Desenrolar a sua cadência debaixo da língua, desdobrar os trocadilhos e descobri-los sem manha, nas esquinas de sombra. Sentir que se vive outra vez, apesar do barulho dos dias quase sempre iguais, porque afinal o sol nasce sempre do outro lado do mar. É preciso ler poemas. É preciso ver uma flor a desabrochar. É necessário sentir a gota de chuva a caminhar como um caracol no vidro. É assim que cai o tempo na alma, com sentido e com peso.
Não esquecer que se vive. Não abafar em controlo das coisas, sufocando o sentir.
Hoje, leiam um poema. Ouçam uma música bonita. Hoje, vou dar um beijo com barulho e saliva nos meus amores. E devagar, desfrutando, vou sentir a sua presença, o seu fôlego doce, a sua maravilhosa existência em mim. E vou sorrir. É tão bom estarmos vivos.

Coração vezes infinito

A demanda pelo controlo da mente é a maior e a mais difícil batalha do homem sobre a terra. Da mente, consciente e inconsciente, emerge a criativa realidade que vivemos e todos os castelos e estátuas que erigimos às circunstâncias selvagens. O pensamento como força brutal que comanda as marés do maior oceano do mundo. É preciso coração bravo para manter as rédeas deste cavalo louco. E o que fazer quando somos três ou quatro vezes coração para uma mente teimosa e errante? Eu sou muito coração, tanto, que transborda e sente tudo tão profundo, que custa respirar, olhar a bússola e encontrar o norte.

É verdadeiramente pecado amar demais. Mas é preciso colocar o Grande Amor em tudo. E é preciso vigiar a mente com a frieza de soldado à atalaia na noite escura. Onde está o equilíbrio? Onde está o fio condutor a que nos agarramos e balançámos perigosamente no penhasco?

O Grande Amor deixa-me em desorientada no mapa da mente. Coloco a capa deste sentimento grandioso e, por vezes, não consigo enxergar a verdade sobre mim mesma. Tenho de manter olhos, ouvidos, mãos e algum coração abertos, observar-me e mudar de dentro para fora…

Ser a noz que se guarda até o interior estar macio e uniforme, força amorosa e solar para se expor ao mundo.

É grande o trabalho para os que sofrem deste coração transbordante. Não perder a ternura e não me perder no Caminho.

É verdadeiramente pecado amar demais. E eu não sei amar de outra forma. Então tenho de domar este potro louco com a rédea que me coube em sorte. E ter esperança.

Imagina Dragões

E, tempos depois, perante um deserto grande frio, com pedras lisas e alvas como a lua, que ficou lá trás, eis que nasce um dia brilhante, em que a nossa estrela é a mais alta no céu.

Não interessa se ainda é de dia, se a noite ainda não desceu, se os nossos olhos ainda não se acostumaram com esta luz cega, que rasga o véu da realidade.

Não interessa se temos medo, não da noite ou do frio, mas da luz de milhões estrelas, porque não parece possível ser feliz outra vez.

Não interessa de somos humanos a fingirem ser deuses.

Não interessa, na verdade, porque somos dragões brilhantes a passearem este céu escuro, de caudas entrelaçadas, cuspidores de fogo e de outras mágoas… Somos dragões a mostrar as árvores e as flores ao nosso filho. Somos reis e senhores no trono desta dor antiga, e por esta dor e desgostos, brilhamos hoje num fulgor imenso.

Imagina-nos, dragões brilhantes cruzando os céus, sobre as cabeças dos demais, que procuram cegos e surdos um Amor assim, desmesurado e eterno.

Imagina dragões que ousam tecer redes e, com elas, pescar estrelas para iluminar o coração.

E, pecado maior, imagina sermos felizes outra vez….

Voltar à aldeia

Falta-me a aldeia, grande nas suas gentes pequenas e espaços curtos. Tudo perto, mãos entrelaçadas, sorrisos de esguelha, alegria aos tropeções.

Falta-me a aldeia, luminosa, com casas brancas de porta aberta, com mesa posta, aromas doces e um lugar alto vazio, para aquele que tarda mas sempre vem.

Falta-me a aldeia, em que a única solidão era a de dentro e um choro que nunca era só de um. O amparo vinha de um mesmo colo, largo, com as lágrimas do mundo.

Falta-me a aldeia, falta sentir-me uma mulher da aldeia, onde o vazio rodeia mas não entra.

Porque na aldeia, a solidão faz-se multidão, o vazio sucumbe às vozes estridentes e o silêncio é o bálsamo da natureza, a calma dada aos pássaros e aos dias.

Faz-me falta a aldeia e as suas pontes para atravessar os abismos.

Agora a aldeia sou eu e tu e esta casa silenciosa a ecoar a solidão de dentro. Os brancos são são mais amplos, as montanhas mais frias.

Falta-me a aldeia…

As montanhas que se fazem planícies

Aqui, da montanha que escalei hoje,

Encosta íngreme que abraço como se fosse macia

Pedras que resvalam na minha fronte

E o cume liso de céu azul, bem alto, sobre a minha cabeça.

E desta montanha tão alta, e deste corpo cansado, e deste cume tão belo

Tudo é esquecido, a montanha torna-se planície

E o arfar rápido do meu peito torna-se longo suspiro.

Tudo porque vos vejo meus, o pai, o filho, o divino de existirem.

É tão grande a comoção, que tudo se oblitera: a dor, o medo, o cansaço.

Só o amor me invade, só a gratidão me prende a este chão.

Não importa quão humana sou 23 horas por dia.

Há um segundo, uns minutos e uma hora do dia, em que sou um deus menor.

Sou um milagre impossível.

Sou a esperança e a graça.

Cheguei a casa. Finalmente.

Dizer não ao medo

Dizer não a ser inteira nesta ferida,

Negar-me a preencher o casulo da culpa com o meu corpo,

Recusar deixar crescer o medo até ocupar todos os lugares dentro de mim.

Porque eu não sou a ferida, nem a culpa nem o medo.

Eu não sou a doença, só que por vezes acredito que o que sinto é do tamanho do que sou.

E há um palco muito maior no meu ser.

Se eu me partir, ou me abrir como um harmónio… descubro o que sou soterrado em mentiras.

Eu não sou a doença. Eu sou a cura, só tenho de começar a acreditar.

Há em cada coisa aquilo que ela é e que a anima. Na flor, não é o amarelo das pétalas. No pequeno insecto, não é o barulho das asas.

Em mim, não é o que sinto… é o que acredito ser.

Vestir a Alma

Vejo-a bem, uns passos à minha frente, vestes brancas, descalça e com um sorriso rasgado no rosto. Qual flor mais perfeita e frágil do mundo. Desde que vieste para este mundo, estendes a mão para a minha criança de dentro, aquela que volto a ser quando te vejo e convidas-me a caminhar contigo. A minha criança interior tem medo e olhos cansados, de velha ferida e desconfiada, mas o teu olhar límpido envolve o meu. Eu sinto-me desnuda e, contigo, sou a primeira gota de orvalho da manhã, aquela que inaugura o mundo. Não pensei ser possível voltar a ser assim, nova em esperança, apesar de todos os destroços da vida.

És exatamente aquilo que te anima, a tua alma brilha alto, e a minha criança segue-te cega e ébria de luz, gravitando à tua volta. Esta criança desarma-me de todos os meus segredos e engenhos. Às vezes tenho vergonha do minha trémula sombra no seu encalço. Mas então, ergo os meus olhos e encontro o seu olhar luminoso, de confiança inabalável em mim. E volto a vestir-me da minha Alma, como era no início. E volto a nascer contigo.

Amar pequenas flores

A força das pequenas flores.

Pequenas flores há muito desejadas. 

Primeiro semeadas onde o terreno ainda infértil, aguarda.

Sementes adormecidas e duras como a lua. À espera. Caladas. 

Ao florescer, são pequenas. E só enormes no seu desejo, no seu grito de vida.

Às pequenas flores, o Amor Maior.

O Amor que dilacera. O Amor que transborda. 

O Amor ao que é pequeno em tamanho e gigante no que se quer mais que tudo,

A salvo do mundo, a salvo dos homens. Bem perto do nosso centro, do nosso Deus interior.

Ao meu filho, o Amor maior, em desmesurada medida, cheio de medos e imperfeições.

E ainda assim, cheio, numa plenitude que suporta galáxias e estrelas. 

A pequena flor, o meu filho, o meu Amor Maior. Que dói na alegria impossível de existir.

É pecado não amar demais… pequenas flores só se amam assim, para sempre.

A arte de saber esperar de mãos vazias

Há em tudo o que existe um ser pequenino em camadas. Como um botão de flor, dobrado em si mesmo em um milhão de pétalas, guardando um segredo impossível. A realidade das coisas às vezes é crua e simples, cada coisa é o que é, mas isso às vezes não basta. Pressentimos o palco maior onde tudo se inscreve; o ruído de fundo do Universo que nos faz por vezes perder o chão, por ser tão imenso. Aí vivem todos os porquês do mundo, toda a ordem, todo o sentido. E é tão difícil apreender este fundo essencial, esta consciência maior, esta vastidão de galáxias distantes do centro da Terra. 

E, quando as marcações da realidade nos trocam as voltas, quando tudo está certo até onde podemos sentir, e tão pronto, que nos sentimos à beira de uma grande mudança, como uma onda imparável e, mesmo assim, tudo se imobiliza, temos de nos entregar ao abismo sábio, à vontade ancestral da Natureza. 

Entregar ao que tem de ser. Sem fazer perguntas, com as mãos vazias e de coração cheio, esperar. E confiar no que parece vazio, apenas porque não compreendemos. E vai tudo ficar bem.