Um lobo no coração

Olha com atenção, é um lobo das estepes. Destemido, com tempestades no coração.

Por vezes, ergue-se do alto da sua coragem cega e morde o céu.
Rasga o seu ventre azul e
Pedaços de nuvens desatam a cair, como neve gélida e pura,
Que deliciosamente pousam na pele,

E derretem algum tempo depois.

É um lobo casmurro de pêlo áspero e de pele frágil.
Caminha na estepe gelada, secretamente a suspirar o sol.

Ao lobo das estepes não lhe conhecem os segredos. Nem ele os sabe.
Caminha cinzento por entre as árvores.

Por vezes, olha para o alto, para as estrelas.
E, por entre nebulosas a morrer,
Ele vê a ordem que precede ao caos. As suas cores impossíveis,
Desenhando-se no breu ancestral.

E fica um pouco triste, um pouco assombrado.
Uma felicidade pequenina instala-se no seu coração de garras.
Ele vê minúsculos milagres e acredita.
Ainda é possível ser-se feliz. Mesmo nas estepes. Mesmo sendo um lobo.

Anúncios

Deixar partir devagarinho

A tristeza discorre do Ser como uma pequena nascente água fresca, que irrompe a terra num diminuto mas audaz movimento. Ninguém sabe desta minha tristeza; tal como ninguém conhece a pequena nascente de água, só o solo mais próximo e as plantas mais rasteiras sabem da sua presença e do seu efeito. Só elas bebem do seu sentimento melodioso, do seu correr ininterrupto, que inunda, tímido, o incauto coração. A tristeza de todas as coisas abortadas, de todas coisas que eram para Ser e morreram antes de florescer em abundância. A dor do que não foi, mas sonhámos ser, imprime na Alma como a pequena corrente no solo – devagar e inexoravelmente – e deixa uma fenda na terra. Vista do céu, esta tristeza, nada mais é, do que um poça de água insalobra, enlameada e com com folhas mortas à superfície. O verdadeiro milagre, é que se deixarem correr a tristeza livremente, como um fluxo de lágrimas insignificante, ao fim de algum tempo, o solo irá multiplicar-se em verde e em vida. E alma voltará a brilhar, limpa como a natureza depois da chuva. O segredo é deixar correr a água; o milagre é deixar morrer a tristeza. A força está em permitir-se deixar partir, para ficar o que um dia irá fluir como a maior de todas as cascatas.

Haverá flores

Houve um tempo de palavras interditas, depois vieram as tempestades violentas. E depois, os grandes silêncios, uma paz que arrastava os podres segredos do coração. Houve um tempo para partir, para cortar e rasgar fundo, até quase nada restar. Houve um tempo assim, sem nada a suportar o corpo, apenas fragmentos de uma Alma que não era mais do que um fantasma em esquinas poeirentas e em ruas sem saída. Foi esse o tempo para matar o que nunca deveria morrer, para fazer o luto do amor de pés de barro, de altares vazios. Foi assim, um vaguear sem rumo, como uma borboleta negra, ébria, em torno de uma lâmpada fosca. E depois houve o tempo de aprender, de descobrir que havia uma Alma ancestral que jamais se perde, que já atravessou o véu do tempo para viver debaixo deste sol. Há um corpo para redescobrir como seu, como se de repente tivesse de fazer o reconhecimento aos limites da carne. E, assim, o fantasma se ergue sobre duas patas. Havia braços para abraçar e pernas para caminhar. E havia caminho, e pedras para afastar. E havia amor, mesmo nos escuros lugares improváveis, onde reina a dor. Há sempre uma semente pronta a despontar, há sempre uma flor para contemplar. E vai ficar tudo bem, porque esta Alma cansada, atravessou o mar de fogo e o deserto de gelo, e bebeu a sua dor e comeu o seu desespero. E aprendeu, e disse, jamais voltarei aqui. E vai continuar. E vai acreditar. O melhor está ainda por vir. 

Não esquecer mas não guardar

Não quero nunca esquecer onde estivémos, os dois.

Lá, no jardim, dos silêncios
Lá, na beira da estrada, de mãos dadas,
A nossa sombra derrubada no chão, tremeluzente no calor.
Lá, na cama, nos lençóis remexidos, na descoberta de
Nós, à janela, a ver a luz a brincar nos prédios,
E os outros, ao longe.
Nós, nos sonhos invencíveis, na lua e em marte,
Eu 􏰀tinha as palavras, tu 􏰀tinhas o sorriso.
Só o tempo era nosso. O resto era para depois.

Não quero nunca esquecer onde estivémos.
Mas tenho de lhe largar a mão.

Pássaros feridos um dia levantam voo

Há muito que se pode dizer sobre a dor. A dor como uma onda que vem de mansinho, uma atrás da outra, sem dar tempo da areia secar, da pele recuperar do sal incrustado, que esgravata a dor num suplício infindável. A dor como uma tempestade, que se abate sem dar tempo para respirar, impregnando tudo com uma humidade de gelo,  cegando os olhos numa cortina branca de água. A dor como o último canto, do último espécime dos pássaros cantores, que se empala no mais fino dos ramos, antes que lhe morra a voz.  Não conhece a verdadeira dor quem não amou na mesma medida, desmesurada e perdidamente. Só conhece a dor quem amou tanto, quem deixou que o seu amor ocupasse todos espaços e todos tempos, até se consumir em desilusão. Neste mundo de paradoxos, não é possível conhecer a verdade, sem arriscar tudo por ela. Arriscar o amor e, depois, experimentar a dor. Tão alto e tão longo, assim é o esquecimento. Às vezes, quando pensamos ter resumido  a dor a um murmúrio quase habitual, algo nos lembra aqueles dias de total cinzento no céu e na Alma e, então, dói de novo, mas é uma dor diferente. Porque agora, sei que sobrevivi a tudo isto, sobrevivi a mim mesma, doente e ferida como nunca, e lutei e esgravatei a poeira dos meus sonhos vencidos, mordi e tatuei a negro e a vermelho invisível na Alma e na pele, e vivi até ver este dia, em que sinto que sou tão mais do que soma de tudo, em que, sedenta e faminta, bebi da minha dor e engoli a minha raiva. Sou hoje um pássaro ferido que levantou voo.

Nos dois lados da ponte

Galga todas as ondas
Escala todas as montanhas
Rompe todas as tempestades
Para fora, para o tamanho de tudo o que queres ver
Para depois da curva do mundo
Para ver, que estamos sós, e não há nada do outro lado da ponte.
O outro lado, está aqui dentro, ao virar da curva espinhosa de mim,
Dos meus erros, das minhas faltas, dos meus sonhos vencidos.
As ondas e as montanhas e as tempestades: e só eu dentro delas.
A vida avança e eu não posso fechar a janela,
A única coisa a fazer é rolar com estas coisas, navegar por entre a sua força e, por momentos, ser esta bravura que descobre o mundo.
Sou o barco que quebra e persiste.
Amei com o bom e a candura em mim
Mas nunca irei mudar o mar ou a montanha…
Nem a nós. Só posso mudar… Eu.

A arte de escolher o caminho mais longo

É fácil ser santo no cimo da montanha, no sentir eremita de quem se afasta do mundo.

É fácil manter-se à tona se nunca se tocar na água, evitando o mergulho.

É fácil não sofrer, basta não sentir.

Escolher a margem será sempre o caminho mais fácil e mais seguro.

Mas escolher o que é fácil não é viver. É ser-se moribundo, é viver dormindo na ignorância cega, numa imbecil tranquilidade, na absoluta solidão, no desperdício desta oportunidade na Terra. É ser parado, lago estagnado e estéril.

Foi para isto que viémos? 

Escolher sentir, tocar, cuidar é incomensuravelmente mais difícil. Há dor e há perda e há risco. É caminhar na beira do penhasco com os bolsos cheios de pedras, com as mãos nuas, com a cabeça confusa. Mas é arte. É a verdadeira Arte, viver doendo, amando, caindo e levantando… escolher o caminho mais longo, e levar pouco na bagagem. O segredo talvez seja ser simples… deixando cair o que já não serve, não cabe e pesa na Alma e continuar, sempre. 

Escolher o rio tumultuoso e esperar os lagos calmos, o raio de luz por entre as nuvens que nos bate em cheio na face, a mão que nos aperta o coração. Sentir o pulsar monstruoso do coração quando se ama e se teme perder. Isto é viver. E dizer no fim, valeu a pena.

Monstros & Homens

Sacudir o monstro de dentro. Pensar que já não o tenho tenho. Sentir que já o perdi. 

O monstro da saudade, a sombra do medo. O soluço da verdade.

Caminhar um pouco mais. Pensar que já estou inteira. Ver um pedaço meu ali na areia.

Haverão sempre monstruosos pedaços de mim em todos os lugares que amei.

E eu sou mais do que todos eles. Sacudi os monstros e os homens, aqui de dentro.

Eu sou a vontade que nunca morre. A vitória do que resiste, e renasce.

Eu sou hoje o que subsiste em mim, apesar de tudo. E muda, e cresce e nunca esquece.

Mas deixo os monstros lá trás. É de homem carregar com eles. E eu sou uma mulher.

Caminhar fora das linhas

Estou a tentar ser corajosa. Todos os dias, recuar um pouco para apanhar os pedaços de mim, que ficaram logo atrás, arrancados à força de palavras, de gestos, de viragens bruscas de direção, varridos pela força de mil ondas ou afastados pela brisa gentil. Estou a tentar ser corajosa, aguentar mais um pouco, dar mais um passo e mais um. Tentar, tentando ver melhor na bruma da incerteza, porque a verdade mora no cimo da montanha e os dias são sempre de nevoeiro. Estou a tentar ser corajosa, mesmo quando demoro a levantar-me, mesmo quando o pensamento voa raso, com uma asa partida. Estou a tentar, estou a tentar… e, às vezes, não consigo. E apetece-me ficar quieta, ser aquela canção triste no rádio, embrulhar a Alma numa manta pesada de inverno, e não tentar nada, não ser nada, nem desejar nada. Mas não pode ser. E então volto a tentar. Vou ser corajosa mais um bocadinho, vou esperar pela coragem com bravura, ela não tarda a aparecer. E então ela vem, um raio de sol, um rosto, um sorriso. Dou-lhe mão e ela vem comigo, somos da mesma altura, eu e a Coragem. A mesma medida impossível da esperança. 

21 gramas de alma

Quanto pesa a nossa alma?

Quanto de nós fica tatuado nas coisas que um dia criámos e cuidámos como se fosse um pedaço de dentro? Quanto de nós se imprime nas paisagens que vimos e que tocaram a nossa alma? Quanto do nosso olhar ficou preso, deixando-nos um pouco cegos para as coisas de agora? Quanto do nosso sangue se derramou em tantos sonhos vencidos, em obras imperfeitas que erguemos quase a beijar o céu, para a seguir tombarmos com elas, comendo o pó da terra, misturando as lágrimas com a chuva. Quanto tempo, quanto amor, quanta dor… Como medir tudo isto, senão pela parte que hoje nos falta e que dói como se ainda existisse, numa saudade de náufrago que contempla o mar… 

Porque me dói tudo agora como se tivesse sido ontem? Como se hoje o mar devolvesse os destroços de um naufrágio há muito esquecido, voltando a reescrever a tempestade… Porque acalentamos o passado como se fosse tesouros, pérolas de dor que enfiamos como contas de um rosário, e usamos ao peito como troféus de guerra. 

Porquê? 

Porque dependemos de todas estas coisas para contar a nossa história. Porque desenrolamos o fio da nossa vida pelas veredas das derrotas, muito mais do que pelos cumes das vitórias. Porque a minha história não é a totalidade do que sou, mas explica o lugar que ocupo no mundo. Como desapegar-me de todas estas coisas, que são de mim, que são de ti e de tantos outros… Como ser livre neste exército de escravos do mundo? 

As coisas não são só coisas. As palavras não são só palavras e nenhum gesto morre sozinho. Há que lembrar para mudar e fazer diferente. Eu sou tudo isto e, muitas vezes, vou lembrar-me de todas as coisas que amei. E vou contar um pouco sobre elas, e vou escrever sobre elas em mim. E depois, vou pegar no futuro e escrever palavras novas. E ser de novo, uma e outra vez. A história não acaba aqui.