Estradas Secundárias

Há um sítio secreto atrás do teu leito, do teu rio a querer jorrar para fora da tua alma, há tanto tempo escondido, nos muros e veredas do teu coração, da tua fortaleza inexpugnável.  Fui procurar à margem de tudo o que se vê, debaixo da superfície, atrás da vista do mundo. Fui buscar às ruas secundárias, distantes das estradas bonitas que vão dar a caminho algum com o Teu Nome. Lancei-me à margem de mim e de ti, atrás, lá longe e depois do último pôr-do-sol. E encontrei. Encontrei os limos lânguidos com a cor do teu segredo, a humidade fendida sob os meu dedos tacteantes, escorregadios do teu suco de frutos,  demasiado frágeis aos elementos; ao vento e à chuva e à língua molhada dos meus beijos, abrem-se alternadamente, hesitantes na sua dádiva de polpas demasiado verdes, demasiado jovens, mas incrivelmente prontas. Há um segredo original na tua terra pantanosa, lodosa e larga, como um nenúfar pronto a receber a flor, a nutri-la e a entrar nela com raízes profundas, debaixo de água, quente e fumegante, como o teu amor sussurrado no último fôlego antes de adormecer, para sempre. Somos pântanos perdidos um no outro, na jangada de ti em que agarro como náufraga, ao teu leito que encosto à minha margem e, no meu centro, finalmente enraizado em Ti, neste caminho escuro que encontrei até Nós. E agora, perdidos, sujos e molhados, nesta tempestade tropical, temos um rio enorme, transbordante de vida e de cálidos murmúrios de amor, como pássaros inaugurais, cantando pela manhã, mesmo à margem, de Nós e do Mundo.

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As vidas sonoras do coração

Quantas vidas sonoras tem o meu coração?
De tambor descompassado,
À mais doce flauta enfeitiçada,
A concha estéril ecoando o mar.

Numa outra vida sonora,
O meu coração calou-se num murmúrio.
Tão baixo, que não se sabia com voz
Tão lento, que desesperava o próximo fôlego.

E, durante muito tempo,
O silêncio,
O som da engrenagem,
A mecânica de existir.

Quantas vidas sonoras tem o meu coração?

Agora, nesta vida sonora,
De canto de pássaro ferido,
A ocarina doce e secreta,
Ao sussurro doce de quem recomeça.

Voltar a ser a música que vem dentro,
Um canto que nasce daquele sítio
Onde, afinal, voz alguma morre.
Apenas espera, num lento compasso,
A batida certa para soprar,
O canto certo para entoar.

Quantas vidas sonoras tem o meu coração?

Muitas, não consigo contar.
O segredo está em nunca parar de cantar.

 

Desvendando segredos

Desvendo as tuas montanhas,
que de verde se fazem florestas,
e de branco se vestem vastas
planícies de neve incandescente.
Descubro os sítios secretos
onde passeias desgostos e
guardas imperfeições, longe
de olhares estranhos. Ninguém,
ninguém como eu, vê como
Se desfazem em risos os cantos
dos teus olhos. Como
é de luz que se vestem as tuas
Mãos, que se estendem em dedos
infinitos, intensas impressões nos
lençóis, de pele e de seda, porque
assim é a tua alma, nua e delicada.
Ninguém, ninguém como
eu, vela contigo noites de insónia,
e con􏰀tigo chama o sono, sussurrando
e tecendo sonhos. Eu vejo as
Intrépidas paisagens no teu ser.
Vejo os sulcos de miséria, as
abóbadas celestes que acenaste
Na infância, terra de cores e desertos
frios e com pedras, porque a areia
se esgotou por entre o Tempo.
Vejo como esperas em quarentena.
Entardece, mas dentro de ti􏰀 cai
Noite gélida. Ninguém como eu
Espera a aurora para nós,
Porque é de orvalho inaugural
que é feita a nossa sede.
Cá dentro, espero-te,
Ainda é cedo para te morrer em Esperança.

Um lobo no coração

Olha com atenção, é um lobo das estepes. Destemido, com tempestades no coração.

Por vezes, ergue-se do alto da sua coragem cega e morde o céu.
Rasga o seu ventre azul e
Pedaços de nuvens desatam a cair, como neve gélida e pura,
Que deliciosamente pousam na pele,

E derretem algum tempo depois.

É um lobo casmurro de pêlo áspero e de pele frágil.
Caminha na estepe gelada, secretamente a suspirar o sol.

Ao lobo das estepes não lhe conhecem os segredos. Nem ele os sabe.
Caminha cinzento por entre as árvores.

Por vezes, olha para o alto, para as estrelas.
E, por entre nebulosas a morrer,
Ele vê a ordem que precede ao caos. As suas cores impossíveis,
Desenhando-se no breu ancestral.

E fica um pouco triste, um pouco assombrado.
Uma felicidade pequenina instala-se no seu coração de garras.
Ele vê minúsculos milagres e acredita.
Ainda é possível ser-se feliz. Mesmo nas estepes. Mesmo sendo um lobo.

Deixar partir devagarinho

A tristeza discorre do Ser como uma pequena nascente água fresca, que irrompe a terra num diminuto mas audaz movimento. Ninguém sabe desta minha tristeza; tal como ninguém conhece a pequena nascente de água, só o solo mais próximo e as plantas mais rasteiras sabem da sua presença e do seu efeito. Só elas bebem do seu sentimento melodioso, do seu correr ininterrupto, que inunda, tímido, o incauto coração. A tristeza de todas as coisas abortadas, de todas coisas que eram para Ser e morreram antes de florescer em abundância. A dor do que não foi, mas sonhámos ser, imprime na Alma como a pequena corrente no solo – devagar e inexoravelmente – e deixa uma fenda na terra. Vista do céu, esta tristeza, nada mais é, do que um poça de água insalobra, enlameada e com com folhas mortas à superfície. O verdadeiro milagre, é que se deixarem correr a tristeza livremente, como um fluxo de lágrimas insignificante, ao fim de algum tempo, o solo irá multiplicar-se em verde e em vida. E alma voltará a brilhar, limpa como a natureza depois da chuva. O segredo é deixar correr a água; o milagre é deixar morrer a tristeza. A força está em permitir-se deixar partir, para ficar o que um dia irá fluir como a maior de todas as cascatas.

Haverá flores

Houve um tempo de palavras interditas, depois vieram as tempestades violentas. E depois, os grandes silêncios, uma paz que arrastava os podres segredos do coração. Houve um tempo para partir, para cortar e rasgar fundo, até quase nada restar. Houve um tempo assim, sem nada a suportar o corpo, apenas fragmentos de uma Alma que não era mais do que um fantasma em esquinas poeirentas e em ruas sem saída. Foi esse o tempo para matar o que nunca deveria morrer, para fazer o luto do amor de pés de barro, de altares vazios. Foi assim, um vaguear sem rumo, como uma borboleta negra, ébria, em torno de uma lâmpada fosca. E depois houve o tempo de aprender, de descobrir que havia uma Alma ancestral que jamais se perde, que já atravessou o véu do tempo para viver debaixo deste sol. Há um corpo para redescobrir como seu, como se de repente tivesse de fazer o reconhecimento aos limites da carne. E, assim, o fantasma se ergue sobre duas patas. Havia braços para abraçar e pernas para caminhar. E havia caminho, e pedras para afastar. E havia amor, mesmo nos escuros lugares improváveis, onde reina a dor. Há sempre uma semente pronta a despontar, há sempre uma flor para contemplar. E vai ficar tudo bem, porque esta Alma cansada, atravessou o mar de fogo e o deserto de gelo, e bebeu a sua dor e comeu o seu desespero. E aprendeu, e disse, jamais voltarei aqui. E vai continuar. E vai acreditar. O melhor está ainda por vir. 

Não esquecer mas não guardar

Não quero nunca esquecer onde estivémos, os dois.

Lá, no jardim, dos silêncios
Lá, na beira da estrada, de mãos dadas,
A nossa sombra derrubada no chão, tremeluzente no calor.
Lá, na cama, nos lençóis remexidos, na descoberta de
Nós, à janela, a ver a luz a brincar nos prédios,
E os outros, ao longe.
Nós, nos sonhos invencíveis, na lua e em marte,
Eu 􏰀tinha as palavras, tu 􏰀tinhas o sorriso.
Só o tempo era nosso. O resto era para depois.

Não quero nunca esquecer onde estivémos.
Mas tenho de lhe largar a mão.

Pássaros feridos um dia levantam voo

Há muito que se pode dizer sobre a dor. A dor como uma onda que vem de mansinho, uma atrás da outra, sem dar tempo da areia secar, da pele recuperar do sal incrustado, que esgravata a dor num suplício infindável. A dor como uma tempestade, que se abate sem dar tempo para respirar, impregnando tudo com uma humidade de gelo,  cegando os olhos numa cortina branca de água. A dor como o último canto, do último espécime dos pássaros cantores, que se empala no mais fino dos ramos, antes que lhe morra a voz.  Não conhece a verdadeira dor quem não amou na mesma medida, desmesurada e perdidamente. Só conhece a dor quem amou tanto, quem deixou que o seu amor ocupasse todos espaços e todos tempos, até se consumir em desilusão. Neste mundo de paradoxos, não é possível conhecer a verdade, sem arriscar tudo por ela. Arriscar o amor e, depois, experimentar a dor. Tão alto e tão longo, assim é o esquecimento. Às vezes, quando pensamos ter resumido  a dor a um murmúrio quase habitual, algo nos lembra aqueles dias de total cinzento no céu e na Alma e, então, dói de novo, mas é uma dor diferente. Porque agora, sei que sobrevivi a tudo isto, sobrevivi a mim mesma, doente e ferida como nunca, e lutei e esgravatei a poeira dos meus sonhos vencidos, mordi e tatuei a negro e a vermelho invisível na Alma e na pele, e vivi até ver este dia, em que sinto que sou tão mais do que soma de tudo, em que, sedenta e faminta, bebi da minha dor e engoli a minha raiva. Sou hoje um pássaro ferido que levantou voo.

Nos dois lados da ponte

Galga todas as ondas
Escala todas as montanhas
Rompe todas as tempestades
Para fora, para o tamanho de tudo o que queres ver
Para depois da curva do mundo
Para ver, que estamos sós, e não há nada do outro lado da ponte.
O outro lado, está aqui dentro, ao virar da curva espinhosa de mim,
Dos meus erros, das minhas faltas, dos meus sonhos vencidos.
As ondas e as montanhas e as tempestades: e só eu dentro delas.
A vida avança e eu não posso fechar a janela,
A única coisa a fazer é rolar com estas coisas, navegar por entre a sua força e, por momentos, ser esta bravura que descobre o mundo.
Sou o barco que quebra e persiste.
Amei com o bom e a candura em mim
Mas nunca irei mudar o mar ou a montanha…
Nem a nós. Só posso mudar… Eu.

A arte de escolher o caminho mais longo

É fácil ser santo no cimo da montanha, no sentir eremita de quem se afasta do mundo.

É fácil manter-se à tona se nunca se tocar na água, evitando o mergulho.

É fácil não sofrer, basta não sentir.

Escolher a margem será sempre o caminho mais fácil e mais seguro.

Mas escolher o que é fácil não é viver. É ser-se moribundo, é viver dormindo na ignorância cega, numa imbecil tranquilidade, na absoluta solidão, no desperdício desta oportunidade na Terra. É ser parado, lago estagnado e estéril.

Foi para isto que viémos? 

Escolher sentir, tocar, cuidar é incomensuravelmente mais difícil. Há dor e há perda e há risco. É caminhar na beira do penhasco com os bolsos cheios de pedras, com as mãos nuas, com a cabeça confusa. Mas é arte. É a verdadeira Arte, viver doendo, amando, caindo e levantando… escolher o caminho mais longo, e levar pouco na bagagem. O segredo talvez seja ser simples… deixando cair o que já não serve, não cabe e pesa na Alma e continuar, sempre. 

Escolher o rio tumultuoso e esperar os lagos calmos, o raio de luz por entre as nuvens que nos bate em cheio na face, a mão que nos aperta o coração. Sentir o pulsar monstruoso do coração quando se ama e se teme perder. Isto é viver. E dizer no fim, valeu a pena.