Pássaros feridos um dia levantam voo

Há muito que se pode dizer sobre a dor. A dor como uma onda que vem de mansinho, uma atrás da outra, sem dar tempo da areia secar, da pele recuperar do sal incrustado, que esgravata a dor num suplício infindável. A dor como uma tempestade, que se abate sem dar tempo para respirar, impregnando tudo com uma humidade de gelo,  cegando os olhos numa cortina branca de água. A dor como o último canto, do último espécime dos pássaros cantores, que se empala no mais fino dos ramos, antes que lhe morra a voz.  Não conhece a verdadeira dor quem não amou na mesma medida, desmesurada e perdidamente. Só conhece a dor quem amou tanto, quem deixou que o seu amor ocupasse todos espaços e todos tempos, até se consumir em desilusão. Neste mundo de paradoxos, não é possível conhecer a verdade, sem arriscar tudo por ela. Arriscar o amor e, depois, experimentar a dor. Tão alto e tão longo, assim é o esquecimento. Às vezes, quando pensamos ter resumido  a dor a um murmúrio quase habitual, algo nos lembra aqueles dias de total cinzento no céu e na Alma e, então, dói de novo, mas é uma dor diferente. Porque agora, sei que sobrevivi a tudo isto, sobrevivi a mim mesma, doente e ferida como nunca, e lutei e esgravatei a poeira dos meus sonhos vencidos, mordi e tatuei a negro e a vermelho invisível na Alma e na pele, e vivi até ver este dia, em que sinto que sou tão mais do que soma de tudo, em que, sedenta e faminta, bebi da minha dor e engoli a minha raiva. Sou hoje um pássaro ferido que levantou voo.

Nos dois lados da ponte

Galga todas as ondas
Escala todas as montanhas
Rompe todas as tempestades
Para fora, para o tamanho de tudo o que queres ver
Para depois da curva do mundo
Para ver, que estamos sós, e não há nada do outro lado da ponte.
O outro lado, está aqui dentro, ao virar da curva espinhosa de mim,
Dos meus erros, das minhas faltas, dos meus sonhos vencidos.
As ondas e as montanhas e as tempestades: e só eu dentro delas.
A vida avança e eu não posso fechar a janela,
A única coisa a fazer é rolar com estas coisas, navegar por entre a sua força e, por momentos, ser esta bravura que descobre o mundo.
Sou o barco que quebra e persiste.
Amei com o bom e a candura em mim
Mas nunca irei mudar o mar ou a montanha…
Nem a nós. Só posso mudar… Eu.

A arte de escolher o caminho mais longo

É fácil ser santo no cimo da montanha, no sentir eremita de quem se afasta do mundo.

É fácil manter-se à tona se nunca se tocar na água, evitando o mergulho.

É fácil não sofrer, basta não sentir.

Escolher a margem será sempre o caminho mais fácil e mais seguro.

Mas escolher o que é fácil não é viver. É ser-se moribundo, é viver dormindo na ignorância cega, numa imbecil tranquilidade, na absoluta solidão, no desperdício desta oportunidade na Terra. É ser parado, lago estagnado e estéril.

Foi para isto que viémos? 

Escolher sentir, tocar, cuidar é incomensuravelmente mais difícil. Há dor e há perda e há risco. É caminhar na beira do penhasco com os bolsos cheios de pedras, com as mãos nuas, com a cabeça confusa. Mas é arte. É a verdadeira Arte, viver doendo, amando, caindo e levantando… escolher o caminho mais longo, e levar pouco na bagagem. O segredo talvez seja ser simples… deixando cair o que já não serve, não cabe e pesa na Alma e continuar, sempre. 

Escolher o rio tumultuoso e esperar os lagos calmos, o raio de luz por entre as nuvens que nos bate em cheio na face, a mão que nos aperta o coração. Sentir o pulsar monstruoso do coração quando se ama e se teme perder. Isto é viver. E dizer no fim, valeu a pena.

Monstros & Homens

Sacudir o monstro de dentro. Pensar que já não o tenho tenho. Sentir que já o perdi. 

O monstro da saudade, a sombra do medo. O soluço da verdade.

Caminhar um pouco mais. Pensar que já estou inteira. Ver um pedaço meu ali na areia.

Haverão sempre monstruosos pedaços de mim em todos os lugares que amei.

E eu sou mais do que todos eles. Sacudi os monstros e os homens, aqui de dentro.

Eu sou a vontade que nunca morre. A vitória do que resiste, e renasce.

Eu sou hoje o que subsiste em mim, apesar de tudo. E muda, e cresce e nunca esquece.

Mas deixo os monstros lá trás. É de homem carregar com eles. E eu sou uma mulher.

Caminhar fora das linhas

Estou a tentar ser corajosa. Todos os dias, recuar um pouco para apanhar os pedaços de mim, que ficaram logo atrás, arrancados à força de palavras, de gestos, de viragens bruscas de direção, varridos pela força de mil ondas ou afastados pela brisa gentil. Estou a tentar ser corajosa, aguentar mais um pouco, dar mais um passo e mais um. Tentar, tentando ver melhor na bruma da incerteza, porque a verdade mora no cimo da montanha e os dias são sempre de nevoeiro. Estou a tentar ser corajosa, mesmo quando demoro a levantar-me, mesmo quando o pensamento voa raso, com uma asa partida. Estou a tentar, estou a tentar… e, às vezes, não consigo. E apetece-me ficar quieta, ser aquela canção triste no rádio, embrulhar a Alma numa manta pesada de inverno, e não tentar nada, não ser nada, nem desejar nada. Mas não pode ser. E então volto a tentar. Vou ser corajosa mais um bocadinho, vou esperar pela coragem com bravura, ela não tarda a aparecer. E então ela vem, um raio de sol, um rosto, um sorriso. Dou-lhe mão e ela vem comigo, somos da mesma altura, eu e a Coragem. A mesma medida impossível da esperança. 

21 gramas de alma

Quanto pesa a nossa alma?

Quanto de nós fica tatuado nas coisas que um dia criámos e cuidámos como se fosse um pedaço de dentro? Quanto de nós se imprime nas paisagens que vimos e que tocaram a nossa alma? Quanto do nosso olhar ficou preso, deixando-nos um pouco cegos para as coisas de agora? Quanto do nosso sangue se derramou em tantos sonhos vencidos, em obras imperfeitas que erguemos quase a beijar o céu, para a seguir tombarmos com elas, comendo o pó da terra, misturando as lágrimas com a chuva. Quanto tempo, quanto amor, quanta dor… Como medir tudo isto, senão pela parte que hoje nos falta e que dói como se ainda existisse, numa saudade de náufrago que contempla o mar… 

Porque me dói tudo agora como se tivesse sido ontem? Como se hoje o mar devolvesse os destroços de um naufrágio há muito esquecido, voltando a reescrever a tempestade… Porque acalentamos o passado como se fosse tesouros, pérolas de dor que enfiamos como contas de um rosário, e usamos ao peito como troféus de guerra. 

Porquê? 

Porque dependemos de todas estas coisas para contar a nossa história. Porque desenrolamos o fio da nossa vida pelas veredas das derrotas, muito mais do que pelos cumes das vitórias. Porque a minha história não é a totalidade do que sou, mas explica o lugar que ocupo no mundo. Como desapegar-me de todas estas coisas, que são de mim, que são de ti e de tantos outros… Como ser livre neste exército de escravos do mundo? 

As coisas não são só coisas. As palavras não são só palavras e nenhum gesto morre sozinho. Há que lembrar para mudar e fazer diferente. Eu sou tudo isto e, muitas vezes, vou lembrar-me de todas as coisas que amei. E vou contar um pouco sobre elas, e vou escrever sobre elas em mim. E depois, vou pegar no futuro e escrever palavras novas. E ser de novo, uma e outra vez. A história não acaba aqui. 

O pó das estrelas 

Ontem fui passear numa noite escura, mais escura ainda aqui dentro. E as estrelas brilhavam longínquas, testemunho de um passado que já não existe, mas que brilha ainda num impulso antigo, na recordação do que um dia foi um astro maior no céu. Ontem peguei na bicicleta e fui passear o corpo numa noite fria. Queria expulsar os pequenos grilos de dentro, sussurrando ao meu coração. Queria o gelo da noite na minha alma, arrefecendo a minha dor, amordaçando a saudade num abraço gelado. E fui ao jardim, e a noite envolvia tudo numa quietude. Quis ser o riacho que corria feliz. Queria ser a cigarra debaixo da pedra. Queria ser tudo menos aquilo que sentia aqui dentro. Estava cansada de mim, deste ser em constante questão, como dois cães que se digladiam aqui dentro. Dois lobos famintos, solitários na estepe do meu coração. Comecei a balouçar a bicicletas em curvas longas, para prolongar o passeio. Não queria ir para casa encher-me de mim e de nada. A luz do candeeiro pairava sobre a minha cabeça. E eu ali, na vertigem definidora do momento em que sentimos a alma nua, despida pela noite escura. Senti-me a última pessoa no mundo. A última mulher magoada. O mais estéril dos seres, com o mundo no coração e o vazio nas mãos. Avancei a bicicleta devagar, como se o tempo pudesse parar um instante, pela minha vontade.  Parou. Cheguei a casa. Larguei a bicicleta junto à parede. E olhei as estrelas, numa prece silenciosa. E quis gravar este céu, mapeá-lo no meu coração, como pequenas migalhas de esperança a indicar o caminho. Quando estiver a precisar da noite, procurarei sempre as estrelas. A sua luz sobrevivente à distância e ao tempo, desafia  todos os impossíveis. 

Amar como os velhinhos

Amei demais. E amei uma quimera louca, uma utopia que vivia aqui dentro. Este monstro do querer ser e não do que se é. Amei este príncipe do nada, que ocupava tudo e que eu criei, com as minhas mãos, com a minha boca, com todo o meu ser dado ao sonho e ao calor dos dias de encanto intermináveis. Amei com a fé dos crentes em primeira viagem, quando as tempestades ainda não balançaram o barco. Amei como quem ama tudo o que nasce e é frágil, com a promessa de conquistar o mundo. Amei com pressa, com a ânsia de conhecer tudo, como um faminto à deriva perante um oásis. Amei tanto, que não poderei amar assim, outra vez. Amei uma mentira pensando ser a verdade mais pura, e proclamei-a como um vencedor perante o vencido, com o saque da batalha às costas e com o brilho da armadura ao sol. Não sabia então que a verdade é uma certeza íntima que fala baixinho, um misterioso sentir de liberdade, como um pássaro que voa como louco em cativeiro. A liberdade é estar bem cá dentro, com esta verdade que faz o coração bater mais leve e mais firme. Agora vou amar devagarinho, como quem ama as coisas difíceis e velhas, cheias de manias. Amar como os velhinhos, vendo tudo mas pensando só metade, deixando a história desenrolar-se a si própria. Amarei como quem espera a sucessão das primaveras, numa inevitabilidade paciente. Amar com a liberdade a clamar-me no peito, repetindo o meu nome baixinho, para nunca esquecer quem sou. Agora é a vez do amor dos velhos, da paz no coração, porque o amor dos jovens morreu na guerra.

Abdicar de fantasmas

Perdoar não é um acto isolado, que se desprende de nós num único momento de lucidez. Perdoar é um processo lento, vai-se perdoando, se assim se sente esta vontade, esta necessidade de largar a âncora do passado, esta ânsia de se ser livre. Perdoar não inocenta quem cometeu o erro. Perdoar faz nascer a liberdade no coração, ao abdicarmos da tristeza, da mágoa e dos fantasmas. Nós e laços que enredam os fios do sentir, que confundem as cordas da nossa história, que não nos deixam crescer. Quem não perdoa nunca, é como um velho preso na sua casca enrugada, zangado nos seus movimentos apertados, nas rugas que encarquilham o sorriso, sentado num banco de jardim a ver o mundo a acontecer. 

Vai-se perdoando, às vezes um pouco mais longe, outras mais perto, e um dia brota a sensação de página virada. O perdão vem quando a recordação já não dói e deixamos que o rosto da mágoa se materialize na indiferença, como um barco que parte para a sua última viagem. Perdoar, é todos dias dar mais um passo. Hoje mais pouco. Amanhã um pouco mais. É olhar as estrelas e deixar morrer a saudade. É ser livre, é uma página vazia, é uma vida inaugurada, é uma alma sem peso. Vou perdoando até me perdoar. E então vou ser pássaro, sem qualquer ferida. 

Tudo pela metade e no fim não sobrará nada completo

Guardo metade de tudo. Encho tudo a meio, preencho o resto com o vazio. Deixo a parte irmã do todo no meu lado lunar, inóspito e estéril. O lado de tudo que é nada e assim não sente. Porque o que dói é dar tudo inteiro, porque quando se perde, o que resta são destroços e uma ausência, que pulsa como o mais forte dos tambores, na noite mais escura. Como o trovão da tempestade perfeita, que passados 100 anos ainda ribomba nos ouvidos. O eco do que um dia foi tudo, perpetua-se no vale de mim, mais longe e mais alto que tudo. Que a distância que lhe diminua os passos… Que o seu eco distante torne mais pequeno o lugar que ocupa na origem, em mim. Digo tudo pela metade, mas sentirei tudo pela metade, um dia? Ou voltarei a preencher-me para me dar por inteiro, oferecer o nada que sou às balas, de peito aberto, para receber o que me couber em sorte? Talvez a verdade é que não sei ser ou sentir senão desta forma em que o despojamento é tudo. Em que a batalha é travada em campo aberto, sem cautela pela emboscada. Não sei ser nem sentir de outra forma senão aquela em que caminho descalça, com o coração numa mão e a criança de dentro na outra. Possa me encontrar sem nada e com tudo plantado na terra, à espera de que a flor mais bonita do mundo se abra.