Postais do Alentejo

Ao fim do dia, levo-te pela mão nas planícies douradas, em busca das flores azuis. Do céu, nuvens distantes como os males estão, longínquos e incólumes deste nosso amor. A luz derrama-se em nós e por dentro, como uma aura da natureza que se colou à pele. A terra batida levanta pó nos pés; é poeira das estrelas e não da morte. Os insectos afadigam-se a esta hora, com a paixão da noite porvir. E nós nesta quietude intensa, preparados para a fome que aí vem, nossa e dos bichos. A luz é líquida, como a água no ventre materno, impossivelmente terna. A candura da tarde que cai, gentil, no dia e nos corpos. Não há linhas rectas; apenas curvas sensuais do caminho. Guardam-se as alfaias. Bebem-se sôfregos dos vasos. Não importa a noite, se esta hora dourada é eterna.

Ari, escrito a fogo no meu caderno invisível.

O ritmo de Deus

Quando nos recordamos daquilo que está por dentro e que nos anima,

Da chama sem nome nem medida, que arde cá dentro

Do nosso rasto feito de pó das estrelas

Do eco forte da Primeira Explosão, batendo nos nossos ossos

Viver é plena satisfação

E cada átomo de felicidade, vence todos os dias de tristeza.

E, de cada vez que nos erguemos depois da Queda, que vemos mais alto e mais longe, que o nosso ombro é tudo o que o outro precisa e que o nosso abraço é cura para o coração

Recordamos quem somos, de onde viemos e para onde vamos.

E somos deuses. E dançamos com as esferas. E amamos para sempre.

E estamos no ritmo de Deus, estamos a chegar a Casa.