É pecado amar demais

Quem era eu, quem eras tu? Senão um para o outro, naquele tempo de minutos intermináveis. Nenhum ruído, nenhum movimento. Só os dois, o mundo vagamente presente, podia ser mesmo o universo, o seu eco ao longe, como uma explosão distante. Um cântico secreto que só nós entoávamos, em uníssono, como se fôssemos únicos, estrelas cadentes que, numa impossibilidade cósmica, caíam devagarinho e jamais se desintegravam. As coisas do mundo aconteciam-nos apenas para nos aproximar dos momentos em que, juntos, ouvimos o pulsar do nosso amor a nascer. Pensei: nasci para isto, eu, que estava à espera há tanto, demasiado tempo. Mas nunca se espera demasiado para este amor. E era meu, e pensei ser nosso. E talvez fosse. Nunca podemos provar o passado senão no exato momento em que acontece. A minha memória retém-no, mas envolve-o numa teia de deslumbramentos e de desilusões. Acrescento, retiro aqui e ali, estou certa. Mas eu lembro-me. E há certezas íntimas que duram para sempre. Como rochedos cá dentro. E agora, dói-me cada lembrança. Às vezes, dói com tanta intensidade, que lamento tudo ter acontecido. Mas não há maior inutilidade do que lamentar o que aconteceu. É lembrar que já fui feliz e aprender com isso. Mesmo com o sofrimento que entretanto veio. É verdadeiramente pecado amar demais.

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Todos os começos

Uma noite escura. Ao longe, um minúsculo ponto de luz.
Uma réstia brilhante, como um pequeno fogo de artifício.
Cá fora, tudo se move em velocidade.
Mas lá dentro, no útero materno, uma paz primitiva apaga todas as dimensões:
Sem tempo, sem espaço, a vida se forma sem medida alguma.

Todo o começo é um milagre.
A vida é o pulsar eterno de todos os começos.
E ela se derrama sobre tudo.
E sobre ela, caem como estrelas cadentes, todos os desejos do mundo.
E por ela corremos, lutamos e suspiramos.

Às vezes desejamos parar. Fazer a vida mais pequenina em dor. E em silêncios.

No fim, sozinhos, queremos uma vida para dois, ou para três. Que ela preencha a exata medida do nosso amor.

E a vida cresce e se extingue, inevitavelmente, apenas para se transformar em outra coisa.

Podemos viver para sempre. Já vivíamos antes de viver. E assim continuaremos, enquanto a memória de nós no mundo permanecer.

Podemos viver para sempre, se quisermos. Semear estrelas no caminho.

Um dia seremos o céu de alguém.

 

 

Arma de fogo invisível

Não me amputaram as pernas
Não me coseram a boca
Não me cegaram nem ensurdeceram
Não me rasgaram a garganta
Nem me prenderam as mãos.

Buscaram a arma mais pura
O gume mais afiado,
O diamante mais duro,
O tiro de maior alcance.

Em todas as miras, um único alvo.
Aninhado entre ossos jovens mas frágeis,
Protegido na carne intacta e túrgida,
Pulsando em sopro, em vida e em música
O meu coração,

Irresistível para os maus, os reles, os escuros.
Os que não comem, antes devoram.
Os que não se demoram, aprisionam.
Os que não ferem, destroem.

Aos corações apontam e voam cegos,
Como feias mariposas, gravitando desajeitadas
Em torno da luz.

E agora, que passou a tormenta, e
O coração continua a bater, descompassado
E num sussurro, cansado,
Vou torná-lo visível à luz do dia.
Expô-lo apenas quando o sol está no alto
E o céu está azul.

Um coração à prova de bala.
Um coração à prova de tudo.

Laços que se deslaçam no meu ser

Caminho na margem daquele rio e vejo o tempo, o amor, a dor, a sorte e a morte.
Laços que me prendem a tantas coisas.
Prisões que construí aqui dentro, paredes que se fecharam à minha volta.
E eu, que nasci ignorante desta prisão e, por isso, livre.
E segui vivendo, enlaçando-me neste cárcere que não me permitiu ver, nem ouvir, nem ser. Ser o que verdadeiramente sou, na essência e no princípio de tudo.
Às vezes, ao sair, continua-se prisioneiro de si, já sem paredes nem agrilhões, mas no alto da torre da sua culpa, do seu amor magoado, das coisas como âncoras no fundo do mar.
E esta é a maior prisão de todas.
Ser livre é ser nu. É despir-me desta vestimenta do ódio e da culpa. É expor-me ao ridículo, à solidão e à verdade. É perdoar e deixar partir, de peito aberto, de algibeira vazia.
É recomeçar a contar a minha história, baixinho, junto à fogueira, como uma lenda.
A criar outros laços, que não prendem, antes seguram.

Palavras Imperfeitas II

A cada dia, as suas surpresas. A cada dia, a sua luta.
E os minutos se vão fixando, dentro de mim,
Como uma instalação eléctrica que acende cada lâmpada, em corrente.
Pequenas luzes em zumbido, como se não tivessem a certeza de querer brilhar.

A cada dia, o seu trabalho. As suas vozes. O seu silêncio.
Às vezes a dor adormecida, ou a sua lembrança.
Sigo erguendo o meu escudo, sustentando a espada.
Sem desistir nunca. Ganhando balanço no próximo gesto.

A cada dia, as suas esperanças. A cada dia, as suas surpresas.
E tudo recomeça.