Perguntam como posso estar alegre
Se há coisas feias e escuras
Pedras grandes e afiadas
Silêncios cortantes, morte e desafio.
Se ontem era frio e doente e o amanhã
Volta com degradação e vazio.
Pior, tudo volta sempre a ser feio e escuro
Como uma roda que segue sempre pisando
O mais pequeno e indefeso feixe de luz.
Perguntam como posso estar alegre
Se o meu peito é um pássaro ferido
No coração, na barriga, nos pés
Se o galho afiado da vida continua
Ferindo o meu centro aonde sou mais
Terna e meiga. A fé deixou de mover
Montanhas, a liberdade é esvoaçar
Com vergonha por dentro do arvoredo.
Perguntam como posso ser alegre
E eu digo: como o posso não ser?
Se por dentro, este coração se renova a cada
Mergulho no escuro, se estrelas brilham
A cada noite mais fria e calada
Se crianças irrompem no tecido da dor
Titubeando, chilreando, cantando em
Sucessivos trinados e cadências vibrantes
Como posso não ser alegre,
Se a luz brinca na minha pele, luz que
Se derrama como cascata, sobre a tristeza
Como lenitivo, como dança nos meus poros
A contraluz, no entardecer e no amanhecer
E eu termino brilhando como cristal
Como não estar alegre
Se o meu sangue flui, e o som serpenteia
Aos ouvidos, a minha boca repousa
No assombro de existir, e o frémito de ver
O mar, a montanha, a formiga, a flor
E os outros corpos, e seu afã de estar vivo
E as coisas selvagens, e a raiva de estar aqui,
Apesar do medo, da dor, da morte, da sorte
Como não ser alegre? Como?
Convidar a vida a ser, todos os dias
Ouvir a promessa das coisas plenas
Todos os dias, amo o assombro de viver
De ser arauto da alegria que não pede
Licença para existir, que se multiplica
Que se treina até que seja tão natural como
Respirar, fundo, gritar, espetar o peito ao céu
E dizer: bom dia bom dia bom dia
Estou Aqui. Sou eu. Com alegria.