Abrir o ar e a liberdade no peito

Fui ver o entardecer e caminhar um pouco por entre as árvores. Há dias que nos recordam mais os fracassos e nos diminuem as vitórias. São esses dias que temos de reescrever cá dentro, com coisas simples que sabem bem. Fui caminhar à hora em que o sol se aproximava do horizonte. E uma calma permeava tudo em volta. Algumas pessoas passavam, uns pássaros trinavam distantes e os insectos zumbiam baixinho. Havia um vento suave, de norte, que trazia gotículas de água do rio, que se ouvia como um murmúrio longínquo. A luz lambia-me a pele como um beijo dourado, e o vento entrançava-se no meu cabelo. E eu sentei-me na pedra em assombro e em silêncio. É bom viver e não há lugar no mundo como a natureza para nos fazer sentir gratos por existirmos.
Há dias como hoje em que sinto tanto o peso do lixo que ainda carrego às costas, faltas e danos que não são meus na sua origem e que eu, teimosamente, continuo a carregar como bandeira da minha perda. Entardeceres como este, na sua luz despojada de todo orgulho e gloriosa na sua despedida, fazem-me pensar que falta pouco para aliviar este fardo inútil, como se o laço que me prende a ele fosse fácil de desatar. Talvez seja. Mas hoje ainda não consigo libertá-lo. Ainda não consigo perdoar. Mas volto a tentar amanhã. Pelo menos sei que este fardo não me pertence. Nem pertence aqui, a este lugar e a esta hora de luz, em que me vejo na verdadeira radiância do meu ser. Posso ser leve como o entardecer de hoje. É só tentar e nunca desistir. Haverá outros entardeceres.

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