Tempo de ser lobo

Este é o tempo do lobo. Sem matilha, sem dono.
Vagueia pela floresta, densa, o lobo cinzento sem coração.
Alguém o viu, a este coração estilhaçado e dilacerado.
Batendo baixinho, por entre as folhas, como se tivesse vergonha por ainda existir.

Este é  o tempo das estepes geladas, onde caminha, hesitante, o lobo.
Não sabe se vive, se respira, tem medo de uivar e, ao saber-se vivo, querer morrer.

Que tempo é este, em que um lobo já não sabe que o é.
Passou… é a sua sombra, é o vento?

Anoitece. O lobo aquieta-se debaixo da neve. Procura o calor que sabe existir lá dentro.
As veias e as artérias engurgitam-se no velho hábito de se encheram de sangue.
Gorgolejam em nada, como a agonia do moribundo. Sem ar, sem sangue, sem vida.

Hoje será a noite, a neve e as estrelas a pulsarem  ao invés do coração,
Desaparecido, escondido ou esquecido.
O lobo espera o regresso do coração como se espera a primavera:

Ela chegará. Ninguém saberá quando.

Locus Solus – Lugar de mim

Fica. Aquieta-te ao meu ouvido. Quero sentir a tua respiração no meu pescoço. Tão perto, que as tuas pestanas dardejam na minha pele. Um prazer insuportável, só meu, só teu.
Fica. Toca-me aqui dentro, sem mãos, com a tua ausência, com a tua impressão nos lençóis, ainda mornos. Com a certeza do teu regresso derramada ao meu lado.
Fica. Finge que não é de vidro esta parede que nos separa. Finge que é uma lágrima gigante suspensa entre nós, que parece vidro, que parece lupa, a aumentar a dor e o amor.
Fica. Ao fundo do corredor, ainda com o eco dos teus passos, ainda com as lâmpadas tremeluzentes que se agitam à tua passagem.
Fica. Antes que eu descubra que nunca exististe. A não ser aqui dentro. Onde te fiz nascer, e crescer…até te desvaneceres em imprecisas sombras, por entre caves moribundas e dentro de estantes de livros que ninguém lê.
Vai, se tens de ir. Projeto-me deste sofá e já estou lá fora. E sou eu no jardim, livre, a dar comida aos patos. E sou eu, no mundo, a cheirar e beber o ar de novo. Saí, jamais voltarei onde tu estás. Nesse lugar de vazio, onde nunca houve nem haverá nada. Onde ninguém ri. Daqui a pouco. Amanhã.
Não fiques. Deixa-me. Não vês? Já não caminho. Saí a voar e fui com as aves.

Escrito a fogo no meu caderno invisível.

Querer ficar bem

Vou ficar bem. Saciada com nada. Contente no silêncio.
O meu bem vai crescer e ser muralha. E ser escudo.
Não quero um bem elástico, como um espelho de contrários.
Quero o bem que resiste ao tempo e à dor e à sorte.
Aquele bem que conforta, mesmo quando tudo é desolação.
Um bem como um tesouro ou como um bálsamo.
Vou ser o bem. Para mim, esta noite. Vou escolher o bem.
Vou escolher o sorriso. Vou escolher uma cor bonita para dormir.
Vou despir a roupa do ódio e da mentira que me impuseram.
Vou descalçar os sapatos de quem me feriu e caminhar descalça.
Despojar-me dos erros dos outros, deixar de carregar o peso que não é meu.
Hoje o meu bem é a minha escolha. A minha única escolha.

É pecado amar demais

Quem era eu, quem eras tu? Senão um para o outro, naquele tempo de minutos intermináveis. Nenhum ruído, nenhum movimento. Só os dois, o mundo vagamente presente, podia ser mesmo o universo, o seu eco ao longe, como uma explosão distante. Um cântico secreto que só nós entoávamos, em uníssono, como se fôssemos únicos, estrelas cadentes que, numa impossibilidade cósmica, caíam devagarinho e jamais se desintegravam. As coisas do mundo aconteciam-nos apenas para nos aproximar dos momentos em que, juntos, ouvimos o pulsar do nosso amor a nascer. Pensei: nasci para isto, eu, que estava à espera há tanto, demasiado tempo. Mas nunca se espera demasiado para este amor. E era meu, e pensei ser nosso. E talvez fosse. Nunca podemos provar o passado senão no exato momento em que acontece. A minha memória retém-no, mas envolve-o numa teia de deslumbramentos e de desilusões. Acrescento, retiro aqui e ali, estou certa. Mas eu lembro-me. E há certezas íntimas que duram para sempre. Como rochedos cá dentro. E agora, dói-me cada lembrança. Às vezes, dói com tanta intensidade, que lamento tudo ter acontecido. Mas não há maior inutilidade do que lamentar o que aconteceu. É lembrar que já fui feliz e aprender com isso. Mesmo com o sofrimento que entretanto veio. É verdadeiramente pecado amar demais.

Todos os começos

Uma noite escura. Ao longe, um minúsculo ponto de luz.
Uma réstia brilhante, como um pequeno fogo de artifício.
Cá fora, tudo se move em velocidade.
Mas lá dentro, no útero materno, uma paz primitiva apaga todas as dimensões:
Sem tempo, sem espaço, a vida se forma sem medida alguma.

Todo o começo é um milagre.
A vida é o pulsar eterno de todos os começos.
E ela se derrama sobre tudo.
E sobre ela, caem como estrelas cadentes, todos os desejos do mundo.
E por ela corremos, lutamos e suspiramos.

Às vezes desejamos parar. Fazer a vida mais pequenina em dor. E em silêncios.

No fim, sozinhos, queremos uma vida para dois, ou para três. Que ela preencha a exata medida do nosso amor.

E a vida cresce e se extingue, inevitavelmente, apenas para se transformar em outra coisa.

Podemos viver para sempre. Já vivíamos antes de viver. E assim continuaremos, enquanto a memória de nós no mundo permanecer.

Podemos viver para sempre, se quisermos. Semear estrelas no caminho.

Um dia seremos o céu de alguém.

 

 

Arma de fogo invisível

Não me amputaram as pernas
Não me coseram a boca
Não me cegaram nem ensurdeceram
Não me rasgaram a garganta
Nem me prenderam as mãos.

Buscaram a arma mais pura
O gume mais afiado,
O diamante mais duro,
O tiro de maior alcance.

Em todas as miras, um único alvo.
Aninhado entre ossos jovens mas frágeis,
Protegido na carne intacta e túrgida,
Pulsando em sopro, em vida e em música
O meu coração,

Irresistível para os maus, os reles, os escuros.
Os que não comem, antes devoram.
Os que não se demoram, aprisionam.
Os que não ferem, destroem.

Aos corações apontam e voam cegos,
Como feias mariposas, gravitando desajeitadas
Em torno da luz.

E agora, que passou a tormenta, e
O coração continua a bater, descompassado
E num sussurro, cansado,
Vou torná-lo visível à luz do dia.
Expô-lo apenas quando o sol está no alto
E o céu está azul.

Um coração à prova de bala.
Um coração à prova de tudo.

Laços que se deslaçam no meu ser

Caminho na margem daquele rio e vejo o tempo, o amor, a dor, a sorte e a morte.
Laços que me prendem a tantas coisas.
Prisões que construí aqui dentro, paredes que se fecharam à minha volta.
E eu, que nasci ignorante desta prisão e, por isso, livre.
E segui vivendo, enlaçando-me neste cárcere que não me permitiu ver, nem ouvir, nem ser. Ser o que verdadeiramente sou, na essência e no princípio de tudo.
Às vezes, ao sair, continua-se prisioneiro de si, já sem paredes nem agrilhões, mas no alto da torre da sua culpa, do seu amor magoado, das coisas como âncoras no fundo do mar.
E esta é a maior prisão de todas.
Ser livre é ser nu. É despir-me desta vestimenta do ódio e da culpa. É expor-me ao ridículo, à solidão e à verdade. É perdoar e deixar partir, de peito aberto, de algibeira vazia.
É recomeçar a contar a minha história, baixinho, junto à fogueira, como uma lenda.
A criar outros laços, que não prendem, antes seguram.

Palavras Imperfeitas II

A cada dia, as suas surpresas. A cada dia, a sua luta.
E os minutos se vão fixando, dentro de mim,
Como uma instalação eléctrica que acende cada lâmpada, em corrente.
Pequenas luzes em zumbido, como se não tivessem a certeza de querer brilhar.

A cada dia, o seu trabalho. As suas vozes. O seu silêncio.
Às vezes a dor adormecida, ou a sua lembrança.
Sigo erguendo o meu escudo, sustentando a espada.
Sem desistir nunca. Ganhando balanço no próximo gesto.

A cada dia, as suas esperanças. A cada dia, as suas surpresas.
E tudo recomeça.

Palavras imperfeitas I

Olho estes momentos que passaram, fui feliz.
E houve segundos em que um deus menor sorriu no céu,
E em que um relâmpago abriu os mares. E eu fui redonda e inteira,
Toda eu, ali, nua e exposta, à intempérie dos sentidos.

E tudo o que dói hoje é este ser que fui, e que dei e derramei,
Para lá deste cálice vermelho, com o meu sangue,
A pulsar ensurdecedor em todos lugares da Terra
Desta terra feita do meu corpo, em que nada nasceu.

E agora esta dor, a trabalhar a engrenagem da cabeça
Sem coração, reduzido a ruído de fundo, calado
Mudo, como são todas coisas que sofrem e
Em silêncio, permitem viver.

Não sei para quando o acordar. E se alguma vez voltar…
A cantar com o coração empalado,
Talvez não haja retorno,
E assim possa, finalmente, descansar.

E fecha-se o palco, cai o pano.
Nenhum aplauso, nenhuma lágrima.
E sons dos passos, que seguem, adiante.
Para lá há sempre caminho. E recomeço…

A Alma no Coldre

Um carvalho velho ao longe. Um cheiro de terra húmida.
Retiro do coldre esburacado, à cintura magra, a arma fria do desgosto.
Aponto como se fosse atirar aos esquilos. Uma bala mortífera de desilusão.
Guardo a arma no coldre. A ninguém este tiro, nenhuma caçada pelo que já está preso aqui dentro.
Aonde vou plantar esta semente de sombra e de vazio
Que nunca há-de germinar?
A quem vou alimentar com a podridão desta paz calada,
à custa de mim, do meu silêncio de pedra e de deserto?
Olho o coldre à procura da arma. Aponto-a para mim.
O seu metal cinzento como um espelho. E olho e
Esquivo-me ao seu tiro. Pólvora seca.
A desilusão não tem fogo para disparar.
Largo tudo – a arma, o coldre. Rumo nua, sem escudo, sem sombra.
Às vezes há que começar em branco. Rumar a partir do vazio.
Até o carvalho oco e velho pode ser majestoso.
Se souber esperar.