Ontem fui passear numa noite escura, mais escura ainda aqui dentro. E as estrelas brilhavam longínquas, testemunho de um passado que já não existe, mas que brilha ainda num impulso antigo, na recordação do que um dia foi um astro maior no céu. Ontem peguei na bicicleta e fui passear o corpo numa noite fria. Queria expulsar os pequenos grilos de dentro, sussurrando ao meu coração. Queria o gelo da noite na minha alma, arrefecendo a minha dor, amordaçando a saudade num abraço gelado. E fui ao jardim, e a noite envolvia tudo numa quietude. Quis ser o riacho que corria feliz. Queria ser a cigarra debaixo da pedra. Queria ser tudo menos aquilo que sentia aqui dentro. Estava cansada de mim, deste ser em constante questão, como dois cães que se digladiam aqui dentro. Dois lobos famintos, solitários na estepe do meu coração. Comecei a balouçar a bicicletas em curvas longas, para prolongar o passeio. Não queria ir para casa encher-me de mim e de nada. A luz do candeeiro pairava sobre a minha cabeça. E eu ali, na vertigem definidora do momento em que sentimos a alma nua, despida pela noite escura. Senti-me a última pessoa no mundo. A última mulher magoada. O mais estéril dos seres, com o mundo no coração e o vazio nas mãos. Avancei a bicicleta devagar, como se o tempo pudesse parar um instante, pela minha vontade. Parou. Cheguei a casa. Larguei a bicicleta junto à parede. E olhei as estrelas, numa prece silenciosa. E quis gravar este céu, mapeá-lo no meu coração, como pequenas migalhas de esperança a indicar o caminho. Quando estiver a precisar da noite, procurarei sempre as estrelas. A sua luz sobrevivente à distância e ao tempo, desafia todos os impossíveis.
Autor: Ariana Santos
Amar como os velhinhos
Amei demais. E amei uma quimera louca, uma utopia que vivia aqui dentro. Este monstro do querer ser e não do que se é. Amei este príncipe do nada, que ocupava tudo e que eu criei, com as minhas mãos, com a minha boca, com todo o meu ser dado ao sonho e ao calor dos dias de encanto intermináveis. Amei com a fé dos crentes em primeira viagem, quando as tempestades ainda não balançaram o barco. Amei como quem ama tudo o que nasce e é frágil, com a promessa de conquistar o mundo. Amei com pressa, com a ânsia de conhecer tudo, como um faminto à deriva perante um oásis. Amei tanto, que não poderei amar assim, outra vez. Amei uma mentira pensando ser a verdade mais pura, e proclamei-a como um vencedor perante o vencido, com o saque da batalha às costas e com o brilho da armadura ao sol. Não sabia então que a verdade é uma certeza íntima que fala baixinho, um misterioso sentir de liberdade, como um pássaro que voa como louco em cativeiro. A liberdade é estar bem cá dentro, com esta verdade que faz o coração bater mais leve e mais firme. Agora vou amar devagarinho, como quem ama as coisas difíceis e velhas, cheias de manias. Amar como os velhinhos, vendo tudo mas pensando só metade, deixando a história desenrolar-se a si própria. Amarei como quem espera a sucessão das primaveras, numa inevitabilidade paciente. Amar com a liberdade a clamar-me no peito, repetindo o meu nome baixinho, para nunca esquecer quem sou. Agora é a vez do amor dos velhos, da paz no coração, porque o amor dos jovens morreu na guerra.
Abdicar de fantasmas
Perdoar não é um acto isolado, que se desprende de nós num único momento de lucidez. Perdoar é um processo lento, vai-se perdoando, se assim se sente esta vontade, esta necessidade de largar a âncora do passado, esta ânsia de se ser livre. Perdoar não inocenta quem cometeu o erro. Perdoar faz nascer a liberdade no coração, ao abdicarmos da tristeza, da mágoa e dos fantasmas. Nós e laços que enredam os fios do sentir, que confundem as cordas da nossa história, que não nos deixam crescer. Quem não perdoa nunca, é como um velho preso na sua casca enrugada, zangado nos seus movimentos apertados, nas rugas que encarquilham o sorriso, sentado num banco de jardim a ver o mundo a acontecer.
Vai-se perdoando, às vezes um pouco mais longe, outras mais perto, e um dia brota a sensação de página virada. O perdão vem quando a recordação já não dói e deixamos que o rosto da mágoa se materialize na indiferença, como um barco que parte para a sua última viagem. Perdoar, é todos dias dar mais um passo. Hoje mais pouco. Amanhã um pouco mais. É olhar as estrelas e deixar morrer a saudade. É ser livre, é uma página vazia, é uma vida inaugurada, é uma alma sem peso. Vou perdoando até me perdoar. E então vou ser pássaro, sem qualquer ferida.
Tudo pela metade e no fim não sobrará nada completo
Guardo metade de tudo. Encho tudo a meio, preencho o resto com o vazio. Deixo a parte irmã do todo no meu lado lunar, inóspito e estéril. O lado de tudo que é nada e assim não sente. Porque o que dói é dar tudo inteiro, porque quando se perde, o que resta são destroços e uma ausência, que pulsa como o mais forte dos tambores, na noite mais escura. Como o trovão da tempestade perfeita, que passados 100 anos ainda ribomba nos ouvidos. O eco do que um dia foi tudo, perpetua-se no vale de mim, mais longe e mais alto que tudo. Que a distância que lhe diminua os passos… Que o seu eco distante torne mais pequeno o lugar que ocupa na origem, em mim. Digo tudo pela metade, mas sentirei tudo pela metade, um dia? Ou voltarei a preencher-me para me dar por inteiro, oferecer o nada que sou às balas, de peito aberto, para receber o que me couber em sorte? Talvez a verdade é que não sei ser ou sentir senão desta forma em que o despojamento é tudo. Em que a batalha é travada em campo aberto, sem cautela pela emboscada. Não sei ser nem sentir de outra forma senão aquela em que caminho descalça, com o coração numa mão e a criança de dentro na outra. Possa me encontrar sem nada e com tudo plantado na terra, à espera de que a flor mais bonita do mundo se abra.
O norte é a luz
Acordo com o sino ao longe, cada badalada como o bater inseguro do meu coração. Dolorosamente viva, por um momento, a dor é a primeira sensação do dia. Depois, lento, o desenrolar da pele sobre os membros, os músculos que se imobilizam sobre os lençóis, numa impressão amarrotada do movimento. A surpresa de estar viva, abre uma alegria pequenina, como um nenúfar sobre o pântano. A cada inspiração, o descompasso do meu coração e o silêncio da tua ausência, junto à minha face vem dar-me um beijo. Ergo os olhos para a janela, e os feixes de luz propagam-se oblíquos no quarto, com o pó em suspensão, como às vezes retenho o fôlego até explodir dentro do peito e transbordar pela boca e nariz, neste abandono do lamento de estar aqui e tu não estares comigo. Meu amor, nesta manhã de bandeiras desfraldadas ao vento, de pássaros feridos de uma só asa, equilibrando-se impossíveis nas árvores, vou levantar-me e dar o corpo à languidez dos segundos, porque está calor e o tédio invadiu todos os lugares. Ébria de saudade, cambaleante de desejo, levanto-me e sigo a luz que se esbate debaixo da porta. Que eu nunca esqueça a bússola de luz, o norte iluminado para sempre com a silhueta do meu amor, que se vê desde o outro lado do mundo. Sento-me ao pé da lembrança do meu sonho de ti, fecho os olhos com força e desenho a vivas cores, neste sítio só meu, por trás dos meus olhos, o retrato de mim quando te amava. E entro nele, como se entra num bosque encantado, e cada pássaro, cada flor e cada árvore, é uma maravilhosa aventura. Falta aqui tudo o que amámos juntos, e agora morreu e tenho de amar outras coisas, pequenas e grandes. Tenho de ser a formiga que se afadiga por minúsculas migalhas, sem perder a consciência de si neste mundo de gigantes. Que posso eu fazer, senão continuar a viver, sabendo o que aconteceu… Contar histórias novas à lua, abandonando a minha face lunar na noite mais escura e suspirar o dia de amanhã?
O impossível na palma da mão
Ontem, mergulhei longa e silenciosamente em mim
E regressei à superfície para respirar um pouco.
Hoje, mergulho em apneia e no fundo,
Sem fôlego, sou a minha frágil nudez.
E eu, que me pensava vestida até ao âmago,
Sou despojada de tudo. À minha volta, a água
Profunda, a verdade como um véu transparente:
Sou uma cura difícil. E o tempo, uma medida impossível
Na palma da minha mão, um coração cheio de buracos.
Na palma da minha mão, o leme do navio.
O navio alto e largo que eu sou.
Ou será um pequeno barco? Não sei.
Só conheço este leme do tamanho da minha mão,
Do tamanho do que vejo e sinto.
Mas eu tenho saudade do que não vejo,
Quando o que não vejo já não existe.
Então compreendo: é de mim que tenho saudade.
E vou segurar-me na palma da minha mão.
Abrir o ar e a liberdade no peito
Fui ver o entardecer e caminhar um pouco por entre as árvores. Há dias que nos recordam mais os fracassos e nos diminuem as vitórias. São esses dias que temos de reescrever cá dentro, com coisas simples que sabem bem. Fui caminhar à hora em que o sol se aproximava do horizonte. E uma calma permeava tudo em volta. Algumas pessoas passavam, uns pássaros trinavam distantes e os insectos zumbiam baixinho. Havia um vento suave, de norte, que trazia gotículas de água do rio, que se ouvia como um murmúrio longínquo. A luz lambia-me a pele como um beijo dourado, e o vento entrançava-se no meu cabelo. E eu sentei-me na pedra em assombro e em silêncio. É bom viver e não há lugar no mundo como a natureza para nos fazer sentir gratos por existirmos.
Há dias como hoje em que sinto tanto o peso do lixo que ainda carrego às costas, faltas e danos que não são meus na sua origem e que eu, teimosamente, continuo a carregar como bandeira da minha perda. Entardeceres como este, na sua luz despojada de todo orgulho e gloriosa na sua despedida, fazem-me pensar que falta pouco para aliviar este fardo inútil, como se o laço que me prende a ele fosse fácil de desatar. Talvez seja. Mas hoje ainda não consigo libertá-lo. Ainda não consigo perdoar. Mas volto a tentar amanhã. Pelo menos sei que este fardo não me pertence. Nem pertence aqui, a este lugar e a esta hora de luz, em que me vejo na verdadeira radiância do meu ser. Posso ser leve como o entardecer de hoje. É só tentar e nunca desistir. Haverá outros entardeceres.
Breve poema de amor desastrado
Palavras de amor escritas em papéis manchados de café
Beijos roubados aos cantos dos olhos e à ponta do nariz
Pés calcados na dança mais bebêda da noite, no alto luar
Mãos que se tocam debaixo das mesas, a coberto da luz
Amores de desastre, aos trambolhões nas ruas sinuosas
Sem horizontes limpos, nem campos verdes sem fim.
Amor nas rochas, nas veredas, nos penhascos, na lama
Amor sem medida, sem nexo, sem melodia
Desbravado como bandeiras rasgadas, mais altas
Aos borbotões, arranhado na pele, gravado a fogo no coração.
Amor com tempestade nos gestos, com intempérie nos sentidos.
Amor porque sim, sem pensar onde, nem como, nem porquê.
Amor hoje e amanhã. Mesmo que por um segundo.
Amor já, que anoitece cá dentro e faz frio sem ti.
Deixar o medo morrer
Depois de atravessar o mar vermelho, cansada, ferida e traída, depois de rasgar a água à conta dos meus braços e pernas, do meu corpo marcado pela desilusão, com as histórias de encantar aniquiladas pela verdade, absoluta, levantada do chão das mentiras, do peso do tempo imenso em ilusões, ergui-me a custo e comecei a caminhar. Agora, inteira, eu ocupo todos os espaços em mim, mesmo as caves e os sótãos do passado, mesmo os caixotes como túmulos do amor amordaçado, do silêncio de lágrimas, do gesto interrompido. Eu ocupo os meus espaços, a minha consciência em expansão, como um universo de possibilidades, de remotos milagres e de minúsculos prodígios. Estou exactamente onde deveria estar, teço a minha história e não deixo ninguém escrevê-la por mim.
Libertei-me do medo.
Medo da solidão, da diferença, da dor, da morte e do tempo. Posso sofrer, mas jamais me detenho nos nãos e nos porquês. Continuo, com a certeza de que tenho de usar o que me cabe, a cada momento, e criar o melhor de mim mesma.
Liberto-me do medo e não me imobilizo mais sobre o que não foi e o que não será.
A certeza de que o agora e o aqui está sempre certo, liberta-me para viver… E assim nascem estrelas de buracos negros.
Pássaros feridos poderão sempre voar.
Lavar as montanhas
Lavar o meu amor como se lava as montanhas, com a chuva que derrete a neve dos picos, numa avalanche branca que arrasta os cadáveres do tempo. Lavar o meu amor até à sua forma mais pura, mais limpa, mais original. Lavar até ao íntimo, deixar que tudo se renove por dentro e não mais sirva o que está por fora. Há uma estranheza em voltar aos lugares aonde já se foi feliz e onde agora tudo está vazio. É uma pequena tristeza, uma pequena morte. É como tentar vestir uma roupa que já não serve ou que está velha. Quando lavamos a montanha de nós mesmos, escalamos o seu cume e começamos a descer, nunca mais seremos os mesmos de outrora. E isso também é bom. É uma promessa. Mudamos de pele e abandonamos o casulo para sempre. Começo agora a pintar as montanhas com as minhas cores. É bom chegar a este lugar, mesmo sabendo que não poderei ficar. Chegar à montanha é compreender que esta é apenas o primeiro monte da serra. Há que continuar a caminhar.